550 Palavras

-- A vida é engraçada, não Mendonça? Eu aqui, saudável, enquanto você aí, apodrecendo nessa cama de hospital.
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-- Sério. Consigo sentir seu cheiro. Podre. Mais podre do que você já era, Mendonça. Lembra? Lembra de quantas vezes? De quantas vezes você me obrigou a abaixar a cabeça na frente de todos e escutar suas merdas calado?
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-- E depois de tudo o que eu fiz por você, Mendonça. Depois de tudo. Morro de vergonha de pensar. Se alguém souber... não sei... não sei o que eu faço. Acho que perco a cabeça.
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-- Pensando bem, é fácil. Fácil para você ficar aí deitado, tranquilo enquanto eu fico aqui afundado em merda até o pescoço. Coma, à merda. Aposto que você está aí fingindo. Fácil.
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-- Tá. Você é quem pediu. Vê? Vê? Eu desligo essa porra de soro. E agora? Fala. Duvido que você vai ficar calminho deitado aí. Vai, Mendonça. Levanta. Arruma o teu soro. Eu não vou. Tenho a tarde toda livre. Saí do depoimento agora. Feliz? Tô vendo aquele risinho cínico na tua boca. Seu pulha. É, eu tive de ir à delegacia. Todo mundo me olhando. Já sei. Já sei aonde isso vai chegar.
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-- Polícia, Mendonça. É sério. Muito sério. Você sabe. Eu tenho mulher e filhos. E outros filhos. Você sabe. Tudo vai boiar agora... vai voltar... E aquelas coisas, Mendonça. Você nunca botou a mão em nada, não? Eu fui burro. Muito burro. Cara, e agora? E agora?
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-- Mendonça? E agora? Me responde. O que eu faço? Mendonça?
-- Senhor? Desculpe. É hora da medicação. Senhor? Perdão. Realmente, eu não quero incomodar, mas preciso seguir o horário da enfermaria, entende?
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-- O senhor é da família? Sabe? Posso ser franca? 10 por 5, bom, bom. Posso? É um alívio ver alguém aqui. Eu já estava pensando que o Sr. Mendonça não tinha ninguém. E é tão triste morrer assim, sozinho, em um quarto de hospital. Engraçado, o soro está fechado. Bem, não tem mais importância agora.
-- Como assim?
-- Ai. A médica não falou com o senhor ainda?
-- Como assim?
-- O Sr. Mendonça não está muito bem, sabe? O soro, a medicação, eu aqui tirando a pressão, nada tem importância. É cruel. Se eu fosse o senhor, avisava a família. Desculpe. Tenho outros quartos para ir. Desculpe. Se precisar de algo, aperte a campainha.
-- Merda, Mendonça. Você vai morrer hoje? Não tá mesmo fingindo? Mendonça? Você já sabia, não? Que eu era esse panaca... Deixa, Mendonça. Morre aí em paz. Fique com seu Deus. Sério. Não posso mais. Esquece. Vou pra casa. Esperar a viatura ou meter uma bala na cabeça. Ainda não sei.
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-- Tchau, Mendonça.
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-- Desculpe de novo. Eu soube que a médica... Ei? Olá? O senhor tá no banheiro? Já foi... É, Sr. Mendonça, seu parente já foi, mas não tem problema. Eu fico um pouquinho com o senhor. Admiro o senhor. Eu sei. Todos daqui estão comentando. Foi o senhor. Eu sei. O senhor deixou um bilhete e a médica entregou para a polícia. Muito bonito de sua parte. Assumir a culpa. E bem nessa hora. O senhor poderia ter ficado quieto. É, Sr. Mendonça, mas não tem preço, não? Morrer em paz.

5 comentários:

Anônimo disse...

Este conto é "mainstream" fugindo ao objetivo básico do forum, a não ser que haja algum componente fantástico que me tenha escapado.Também não gosto muito de contos em monólogo, com interlocutor inteligível, pois a gente fica meio no ar.

Miguel Carqueija

Aguinaldo disse...

Um conto interessante, o personagem descarregando sua raiva e frustração
sob o moribundo e por fim se resignando, sem saber que o moribundo o
havia inocentado.
O texto está bem desenvolvido, e coube direitinho dentro do limite. Com
exceção do primeiro aparição da enfermeira, que na primeira leitura não
me pareceu natural.
E faltou caracterizar o texto como FC ou Fantasia... :)

DanielFolador disse...

Achei um pouco confuso, o final. O idéia do conto ficou legal, mas faltou explicar quem falava na ultima parte. E nao gostei do titulo...

Lucas de Lima Rocha disse...

Apesar de fugir da proposta de FC/Fantasia, achei o conto bem interessante. Tem um ritmo bem agradável e um final que dá brecha pra muitas possibilidades. Só perde pontos porque não é FC/Fantasia mesmo...

Carlos Relva disse...

Um conto interessante e irônico, Érica. Então o Mendonça teve um ato altruístico às portas da morte, hein? Mas, talvez, você pudesse trabalhar os diálogos de outra forma, pois quando a enfermeira entra no quarto fica confuso. Infelizmente, seu conto não é de ficção científica ou de fantasia, fugindo a proposta do projeto.

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