Pessoal, em breve mais um concurso mini e micro e o anúncio dos últimos vencedores dos livros!
Aguardem!
[Lu]-(Gême-[as)] - Angela NadjaBerg Ceschim Oiticica
39 Palavras
Duas luas gêmeas observam em silêncio o universo. Estéreis sem vida brilham sobrepostas. Uma lilás a cobrir a outra, nesga crescente, a cintilar atrás como moldura cinza. Guardam de longe: nave que pousa num planeta em ruínas.
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Não Façam Barulho! - Lucas De Lima Rocha
46 Palavras
Shhhh... o senhor da noite dorme, não ousem perturbá-lo. Da última vez que o acordaram, doze sóis foram destruídos e dez lacaios mortos. Não quero morrer, e tenho certeza que nenhum de vocês quer que seu planeta seja tragado pela escuridão. Então façam silêncio, por favor.
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O futurotelefonoscópio - Carlos Relva
31 Palavras
Criou uma máquina para ouvir o futuro. Queria escutar os sons de uma época pacífica, pois sabia que a humanidade não sucumbiria às guerras e aos preconceitos. Perplexo, só ouviu silêncio...
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Sons futuros - Carlos Relva
66 Palavras
Ouçam o leve sibilar dos movimentos precisos de minhas próteses cibernanorgânicas. Ouçam o bipar do uploader em meu cérebro mnemônico, ao receber fluxos constantes de informações. Ouçam o silvar das grandes e pequenas naves entrando em velocidade sub-luminal. E ouçam, ainda, os sons da maravilhosa fauna renascida e genecriada, em seus suspensos e abobadados ecossistemas girando ao redor do pan-mundo.
O futuro é tudo, menos silêncio...
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O fim - Érica Bombardi
55 Palavras
Na sala de jantar, Arthur de pé, impossibilitado de se mexer ou dizer uma única palavra, não tirava os olhos de Anna. Ela, do outro lado da mesa, tremia. Não chorava mais. A respiração sufocada no grito não gritado. O projétil aproximava-se enquanto ela aguardava cumprir o mesmo destino de seu amante, estirado no chão.
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A ONDA-MONSTRO - Miguel Carqueija
82 Palavras
E quando vier a onda-monstro, avassaladora, sufocando tudo, reduzido a escombros os arranha-céus de Copacabana, avançando sobre o Rio de Janeiro, submergindo o Centro da Cidade, a Tijuca, os subúrbios, Bangu, Campo Grande, chegando até a raiz da Serra dos Órgãos? Teremos tempo de fugir? Conseguiremos salvar alguma coisa? Que faremos nós, que será da nossa identidade de cariocas, quando o Rio não mais existir, sob o silêncio das águas, não passar de uma cidade-fantasma submersa, amortalhada pelo peso incomensurável do oceano?
550 Palavras
-- A vida é engraçada, não Mendonça? Eu aqui, saudável, enquanto você aí, apodrecendo nessa cama de hospital.
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-- Sério. Consigo sentir seu cheiro. Podre. Mais podre do que você já era, Mendonça. Lembra? Lembra de quantas vezes? De quantas vezes você me obrigou a abaixar a cabeça na frente de todos e escutar suas merdas calado?
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-- E depois de tudo o que eu fiz por você, Mendonça. Depois de tudo. Morro de vergonha de pensar. Se alguém souber... não sei... não sei o que eu faço. Acho que perco a cabeça.
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-- Pensando bem, é fácil. Fácil para você ficar aí deitado, tranquilo enquanto eu fico aqui afundado em merda até o pescoço. Coma, à merda. Aposto que você está aí fingindo. Fácil.
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-- Tá. Você é quem pediu. Vê? Vê? Eu desligo essa porra de soro. E agora? Fala. Duvido que você vai ficar calminho deitado aí. Vai, Mendonça. Levanta. Arruma o teu soro. Eu não vou. Tenho a tarde toda livre. Saí do depoimento agora. Feliz? Tô vendo aquele risinho cínico na tua boca. Seu pulha. É, eu tive de ir à delegacia. Todo mundo me olhando. Já sei. Já sei aonde isso vai chegar.
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-- Polícia, Mendonça. É sério. Muito sério. Você sabe. Eu tenho mulher e filhos. E outros filhos. Você sabe. Tudo vai boiar agora... vai voltar... E aquelas coisas, Mendonça. Você nunca botou a mão em nada, não? Eu fui burro. Muito burro. Cara, e agora? E agora?
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-- Mendonça? E agora? Me responde. O que eu faço? Mendonça?
-- Senhor? Desculpe. É hora da medicação. Senhor? Perdão. Realmente, eu não quero incomodar, mas preciso seguir o horário da enfermaria, entende?
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-- O senhor é da família? Sabe? Posso ser franca? 10 por 5, bom, bom. Posso? É um alívio ver alguém aqui. Eu já estava pensando que o Sr. Mendonça não tinha ninguém. E é tão triste morrer assim, sozinho, em um quarto de hospital. Engraçado, o soro está fechado. Bem, não tem mais importância agora.
-- Como assim?
-- Ai. A médica não falou com o senhor ainda?
-- Como assim?
-- O Sr. Mendonça não está muito bem, sabe? O soro, a medicação, eu aqui tirando a pressão, nada tem importância. É cruel. Se eu fosse o senhor, avisava a família. Desculpe. Tenho outros quartos para ir. Desculpe. Se precisar de algo, aperte a campainha.
-- Merda, Mendonça. Você vai morrer hoje? Não tá mesmo fingindo? Mendonça? Você já sabia, não? Que eu era esse panaca... Deixa, Mendonça. Morre aí em paz. Fique com seu Deus. Sério. Não posso mais. Esquece. Vou pra casa. Esperar a viatura ou meter uma bala na cabeça. Ainda não sei.
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-- Tchau, Mendonça.
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-- Desculpe de novo. Eu soube que a médica... Ei? Olá? O senhor tá no banheiro? Já foi... É, Sr. Mendonça, seu parente já foi, mas não tem problema. Eu fico um pouquinho com o senhor. Admiro o senhor. Eu sei. Todos daqui estão comentando. Foi o senhor. Eu sei. O senhor deixou um bilhete e a médica entregou para a polícia. Muito bonito de sua parte. Assumir a culpa. E bem nessa hora. O senhor poderia ter ficado quieto. É, Sr. Mendonça, mas não tem preço, não? Morrer em paz.
541 Palavras
Padre Aguiar se preparava para dormir quando ouviu sons provenientes da câmara principal da igreja. Alguém cantarolando e assobiando...
"Será ele novamente?!", pensou, empolgado. Afinal, aquela já tinha sido uma noite de profundas e fantásticas revelações.
Entretanto, ao acender as luzes do templo, percebeu que se tratava de outro visitante...
- Gabriel esteve aqui? – perguntou secamente o homem de terno preto. Apesar de elegante, sentava-se com displicência, com as pernas cruzadas e os cotovelos apoiados no encosto do banco.
O velho padre percebeu que o visitante tinha a mesma essência de Gabriel, pois agora sabia facilmente distinguir anjos de humanos. Mas seu brilho, sua luz, não era tão radiante...
- Posso saber seu nome, filho? – perguntou.
- Isso não importa – respondeu o anjo. – Tudo o que você precisa saber é que o que foi dito aqui não deve ser contado a ninguém.
- Bem... – respondeu o padre, com um leve sorriso – apesar de agora viver na certeza e não mais na fé, concordo que seria muito difícil convencer alguém, até a mais devota das beatas da igreja, da metade das maravilhas que Gabriel me disse!
- Maravilhas? – surpreendeu-se o anjo – Até quando ele falou do arrebatamento?
- Por quê? Irá realmente acontecer?
- Maldito Gabriel! – esbravejou o anjo – Sempre acaba deixando o trabalho sujo em minhas mãos! O arrebatamento terminou há nove anos!
- Como assim? – padre Aguiar estava perplexo.
- Apocalipse 14...
- Apenas cento e quarenta e quatro mil pessoas se salvaram? – questionou o padre – Mas aquela passagem faz alusão aos...
- Aquilo é o que é, e nada mais. – interrompeu o anjo – Vocês, pequeninos irmãos, têm esse péssimo hábito de reinterpretar as escrituras sagradas! Quando não as reescrevem!
- Então, não fui...
- Sinto muito, padre. Você foi uma boa pessoa, mas não o suficiente...
- Mas, se tudo já foi... consumado – disse o padre, com dificuldade em encontrar as palavras. – O que é isto aqui? O purgatório? O inferno?
- Ainda não. É que a simples ideia de presenciar o desespero de bilhões de almas condenadas, era de uma angustia mortal para muitos de nós. Por isso, convencemo-Lo a deixar o mundo sob nossos cuidados, mesmo que para isso fôssemos privados de Sua luz e presença para sempre...
- Condenaram-se por nós?! – admirava-se o padre.
- Sim. Mas sabe o que penso? Que talvez essa punição faça parte dos planos divinos. Afinal, agora, me sinto devidamente julgado...
- Anjos têm mais poder do que imaginei...
- Vocês sempre nos subestimaram! E esse é o meu rancor... Mas a verdade é que manter esta farsa está sendo desgastante. Nosso poder é grande, mas limitado. Mais cedo ou mais tarde tudo isto ruirá. Agora chega! Já falei demais! Até o que Gabriel não teve coragem de lhe dizer.
- Então não há mais esperanças... – disse o padre, dirigindo-se para o altar. E enquanto se ajoelhava em frente ao grande crucifixo, lágrimas brotaram de seus olhos,.
- Não chore, padre. O inferno é pior do que imagina. Digo por experiência própria. Mas vocês, pequeninos irmãos, têm uma extraordinária capacidade de adaptação. Acabam se acostumando...
- Não choro por mim ou pela humanidade – respondeu o padre Aguiar, ainda de joelhos. – Choro por vocês, e o último sacrifício que fizeram por nós...
MINICONTO - Atos e Consequências – Lucas De Lima Rocha
549 Palavras
Durante uma noite de luxúria, enquanto dormia ao lado de duas meretrizes, Salyr, deus dos homens, veio até mim em visões. Era um senhor altivo, de vestes longas e olhar profundo. Disse-me: 'faz o bem sem pedir nada em troca, e o bem terás em troca. Faz o mal sem pedir nada em troca, e o mal terás em troca'.
Eu, que nunca havia me dado a chance de ser um homem religioso, acordei assustado, mas fiz pouco caso do sonho que tivera. Despertei as duas mulheres e brincamos por mais algum tempo – fiz valer a alta quantia que gastei naquela noite – e fui-me embora para meu trabalho.
Passei por uma colônia de shabets no meu percurso. É incrível como os homens dessa etnia conseguem viver em meio a tanta pobreza sem nem ao menos reclamar. Pergunto-me se Salyr realmente enraiveceu-se tanto desse povo a ponto de amaldiçoá-lo eternamente, como dizem as lendas do Livro da Iluminação. Poderia tanta fúria se aplicar a um povo que aparentava tanta fragilidade e tristeza?
Lembrei-me de minha visão quando vi um menino sendo espancado. Era franzino, não mais de oito anos, já cheio de escaras pelo corpo moreno, moscas sobrevoando seu cabelo sujo e seboso. Encolhia-se enquanto cerca de seis ou sete outros garotos – esses mais velhos, entre doze e quinze anos – o chutavam e riam, gritando maldições e injúrias. A rua, no princípio da manhã, estava completamente deserta.
- Maldito! – gritou um deles para o garotinho. – É por conta de pessoas como tu que Salyr amaldiçoou a todos nós! Porco imundo, criatura maligna!
E batiam-no, enfiavam-lhe a cara na lama, mordiam-no e cuspiam em seu rosto. Eu via de longe, embasbacado com a cena. Como podiam ser tão covardes? E o menino, como podia ser tão passivo?
Corri até onde as crianças brigavam, sujando meus sapatos de lama e ficando cada vez mais tonto com o cheiro ao qual nunca me acostumaria.
- Parem com isso, seus covardes! – gritei, puxando o menino da poça de lama para perto de mim. – Não têm vergonha do que fazem, seus monstros? O menino está quase morrendo!
- Pois é o que ele merece, senhor! – disse um dos meninos, quando todos os outros olhavam para mim assustados. – Essa criatura não passa de uma maldição em nossas vidas!
- Vão embora, deixem-no em paz! – eu gritei, espantando as crianças. – Vão-se daqui, pestes!
Eles obedeceram, o menino que falara comigo com ódio no olhar.
Levantei o garoto sujo de lama, obrigando-o o falar.
- Por que eles fizeram isso contigo? – perguntei.
- Porque sou um demônio. – ele respondeu, a voz fraca.
- Ora, deixe de besteiras! – eu disse. – Não acredite no que esses meninos falam de ti! Vá agora para casa, antes que eles voltem!
- Eu acabaria com eles se meu mestre permitisse. – ele me respondeu, no mesmo tom choroso e cabeça baixa. – Ele ficará feliz em saber que um humano é meu aliado.
Com isso uma luz branca e ofuscante acendeu-se – tinha a intensidade de dez mil estrelas unidas em uma só – e o menino desapareceu.
Deixei-me ficar ali, de olhos arregalados e boquiaberto. Demorei a processar as informações, e quando consegui, as palavras de Salyr reverberaram em meus ouvidos. Temi as consequências: afinal, receberia o bem ou o mal em troca de meus atos?
533 Palavras
- Foi você quem quis aquilo! – gritei com ela.
- Sim, mas no final, a decisão foi sua, senhor Paulo.
É papel dos pais perdoar os filhos pelas suas péssimas escolhas para bichos de estimação. Mas não a desculparia, muito menos a sua mãe, por terem acolhido um jelle em nossa casa. Eu o detestava, e odiava ainda mais aquela voz tão serena que parecia estudada – eu sabia que os tradutores são programados para simular o estado emocional da criatura que os usa, mas desejava que sua petulância fosse algum defeito no aparelho.
Márcia avaliava meteoros e seu potencial para a exploração econômica, ou seja, estava a dezenas de milhões de quilômetros da estação no momento do acidente. Eu tentava relembrar os detalhes, mas só conseguia ouvir: o grito de uma mulher do outro lado do corredor e o suspiro débil que se seguiu ao encontro entre o transportador de carga e minha filha, logo depois do estrondo gerado pelo choque de dois corpos tão distintos em massa e velocidade. Seria mais fácil se eu soubesse o instante exato em que minha atenção foi desviada, o objeto que capturou meus pensamentos, o intervalo que se passou desde que ela saiu do meu lado e correu para ver algo que só chamaria a atenção de uma criança. Se eu soubesse – ou lembrasse de – algum destes detalhes, teria coragem de dizer a Márcia que a Fatinha estava viva graças a aparelhos e sua recuperação era tão improvável que mesmo um físico como eu, acostumado às medidas mais ínfimas da matéria, consideraria seriamente o uso da palavra "impossível" entre as outras, escolhidas com cuidado e desalento, para informar a minha mulher que nossa filha estaria morta em algumas horas.
Dias antes e mais de uma vez, o jelle havia me alertado de que sofria de uma doença terminal típica de sua espécie. Claro, eu não havia contato a Fátima – toda a estúpida ideia sobre a necessidade de uma criança vivenciar no fim de seu animal de estimação uma forma de amadurecimento, sim, eu a havia considerado. Junto ao óbvio desejo de, finalmente, me ver livre daquele ser, cuja espécie havia sido traficada aos milhões para entreter crianças entediadas durante as longas ausências de seus pais.
- Há uma forma, senhor Paulo. – ele disse – De salvar a mim e talvez a sua filha.
São proibidas as visitas acompanhadas por não-humanos, então o levei dentro de uma bolsa resistente a nanovistorias e o libertei na cama, ao lado do rosto dela. O jelle se contorceu, seu aspecto translúcido, maleável e repulsivo espalhou-se pelo rosto de minha filha e adentrou silenciosamente a boca entreaberta pelo respirador.
Ouvi mentamente, e mais uma vez, sua voz delicada, que não parecia me acusar, mas apenas lembrar as consequências de minha atitude.
- Você não entende – praticamente sussurrei – É isso que nós, homens, fazemos: escondemos nossas decisões mais egoístas com alguma desculpa – a palavra brincou na minha língua enquanto meus olhos pareciam, súbito, mais úmidos sob as pálpebras fechadas – altruísta.
Ela me abraçou, os dedos finíssimos em meu pescoço, o rosto pequeno, redondo e macio, tão infantil e conhecido que desejei que ainda houvesse algo de Fátima naquele corpo além de memórias assimiladas.
MINICONTO - POSSIBILIDADES QUÂNTICAS - Andrey Komarcheuski
494 Palavras
Quantic era o codinome de um jovem hacker, e nesse dia tinha seu homônimo entrando em fase de testes nas dependências do exército. As possibilidades do processamento quântico eram tão vastas e desconhecidas quanto o futuro desse jovem que tinha nascido logo no início da maior explosão tecnológica que a humanidade já havia presenciado.
Era seu aniversário, fazia 28 anos. Acordou cedo e como de costume abriu sua caixa de email. Achou estranho quando seu próprio endereço estava no campo de um dos remetentes. Ao abrir, percebeu se tratar de uma carta um tanto quanto enigmática, pois continha os números da loteria que iria correr naquele dia. Abaixo uma descrição de como seria o mundo após uma guerra nuclear e a localização virtual da máquina que seria responsável pelo início do conflito.
Analisou o endereço da máquina, e identificou pelo prefixo que se tratava de uma rede de uso restrito, militar. Seria difícil invadir uma dessas redes, se não impossível. Decidiu fazer a aposta na loteria para verificar se aquilo tudo não era fruto de uma armadilha, arquitetada para roubar dados de sua máquina.
Ficou muito feliz quando ganhou sozinho o prêmio acumulado. Sem perder muito tempo, foi logo adquirindo empresas e com uma habilidade fora do comum, guiou a civilização para um novo patamar tecnológico.
Vivia numa ilha isolada quando soube pelo noticiário que todos os centros urbanos haviam sido atingidos por ogivas nucleares. Foi só ai que se lembrou da segunda parte do email e sentiu profunda dor por não ter feito nada para impedir aquele cenário.
Decidido a reverter à situação, vasculha os arquivos da empresa a procura da localização dos servidores quânticos que sua empresa havia produzido. Encontrou a única máquina que ainda funcionava, e ficou atordoado quando percebeu que o endereço virtual era o mesmo que o email havia indicado tempos atrás.
Conseguiu acessar a máquina e verificando as mensagens de alerta, percebeu que as ogivas foram lançadas por um ataque hacker, mas o rastreador não foi capaz de identificar a origem.
Escreve um email, contando a realidade que estava vivenciando e pedindo auxilio para evitar essa tragédia. Titubeou entre os números da loteria. Depois de refletir, percebeu que embora tivesse feito a humanidade progredir, aquele dinheiro lhe roubou o altruísmo e decidiu ocultar os números.
Calculou a velocidade, ajustou o acelerador de partículas para receber um conjunto de fótons, e enviou a mensagem eletrônica para seu próprio email. Os bits de informação saem do processador quântico direto para o acelerador, que manda os fótons a mais de 500 vezes a velocidade da luz em direção ao local onde o satélite roteador da internet interplanetária estaria no dia do seu aniversário de 28 anos.
Acordou cedo, e ao abrir a caixa de email, se deparou com profecias de que o mundo iria acabar. Achou estranho ter seu próprio email como remetente, mas considerou que fosse alguma forma de roubar dados e continuou sua vida como se nada tivesse acontecido.
546 Palavras
Ao se aproximar da porta do quarto Lucília escutou o tropel dos pés de Joyce, ainda que pouco audível. Não era a primeira vez que percebia isso, mas ao abrir e entrar encontrou a menina ajoelhada, apoiada nos tornozelos, diante da banquetazinha de brinquedos. Ali estavam, enfileirados lado a lado, o soldadinho de chumbo, a dançarina, o Dumbo e os diversos monstrinhos e alienígenas.
"Engraçado", pensou a moça. "O que será que ela está aprontando e não quer que eu veja?"
— Oi, Joyce. O que é que você está fazendo?
— Estou passando a tropa em revista — disse a menina de oito anos. — Coloco todo mundo alinhadinho...
Lucília olhou o alienígena de anteninhas e grandes bochechas, gordo como um Buda, que parecia de porcelana e tinha um olhar muito maroto.
— Sempre acho tão engraçado esse que você ganhou da colega...
— Ah, é... — e a menina sorriu amarelo.
— Eu vim te chamar para lanchar, não está com fome?
— Tou sim, eu já vou...
— Não demore — e Lucília deu as costas e saiu do quarto.
Joyce fez um ligeiro afago ao pequeno alienígena de louça, correu para a porta, escutou os passos da mãe se afastando e retornou para junto dos bonecos:
— Foi por pouco, Itar. Eu vou ter que lanchar, você me espera, tá bem?
— Não demore! Estou cansado de ficar sozinho!
— Eu volto daqui a pouco!
Ao deixar o quarto, Joyce não pôde deixar de pensar na sorte de seu amigo alienígena perdido na Terra: não se alimentava de sólidos, líquidos ou pastosos mas apenas de ar. O seu metabolismo dependia exclusivamente da expiração e da inspiração. Com isso, a sua manutenção ficava muito simples. E ele também podia disfarçar-se de inanimado, adquirir a textura da porcelana.
Há quinze dias o uranídeo morava no quarto da criança. Ela o encontrara no jardim e, embora ele se fingisse de estátua, não pudera enganá-la; até porque Capiau, o gato vira-lata, xerimbabo da menina, o rebolara pela terra, desconfiadíssimo. Joyce pensara tratar-se de um gnomo caseiro e levara-o para o quarto, fazendo-lhe um ultimato:
— Vamos, fale comigo, eu sei que você é vivo! Se não falar eu te entrego aos meus pais!
Itar então falara, revelando sua origem num distante sistema solar, que a menina não tinha como identificar com seus conhecimentos infantis. Ela o protegera, fingindo tratar-se de uma estatuazinha, mas não pudera fazer mais nada: a nave que trouxera o visitante fôra obrigada a se evadir da Terra, acossada pela Força Aérea e com a fuselagem danificada. Antes de doze anos terrestres não poderiam voltar, explicara Itar tristemente.
— Mas não tem outros de vocês? Tem tanto disco voador na atmosfera...
— Não é tão simples assim, da minha raça era só aquela nave na Terra, e meu comunicador está inutilizado, por causa daquela fera que o mordeu...
(Referia-se ao buldogue dos vizinhos)
Naquela noite, depois de rezar pelos pais e pelo irmão mais velho, pelo Capiau e agora também pelo Itar, deitada sob a colcha, ela pôs-se a refletir, com seu cerebrozinho de oito anos, na imensa responsabilidade que pesava sobre todo o seu futuro: ocultar e proteger uma pessoa de outro mundo, obrigada a viver escondida no seu. Sua própria infância comprometida por aquela armadilha do destino. E adormeceu com a certeza de estar sendo uma menina boazinha.
Brinquedos – Silvia Seabridge
182 Palavras
Do magro corpo de criança, adormecido junto ao fogo, aproximaram-se, adquirindo vida, bonecas e outros brinquedos que a menina deixava espalhados à toa pelo quarto.
Cansada, depois de distrair-se com eles por muito tempo, sem outra companhia, só, sempre só, era todas as noites vencida pelo sono perto da lareira onde se aconchegava por causa do frio daquela casa vazia de afeto.
A boneca de pano escocesa, Jenny, a mais querida, sentou-se bem perto, tocou-a, chamando os outros. Queria fazer Rosalee ter um sonho feliz, que ela, no outro dia, acordasse se lembrando de uma vida diferente.
Juntaram as mãos rodeando-a e a mesma mágica que os fizera moverem-se lhes deu força e poderes para interferirem nos sonhos da menina que, sonhando, estava em outro mundo, suas bonecas eram agora meninas iguais a ela, seus brinquedos tinham tamanho real, ela não estava mais só.
E, assim, passou-se aquela noite diferente, pelo menos nos sonhos de uma criança infeliz que, pela manhã, ao abrir os olhos, encontrou seus brinquedos imóveis como sempre, mas em volta dela, como ainda se lembrava de ter sonhado.
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Súcubo – Ana Carolina Silveira
52 Palavras
Minha amada. Rainha das sombras, senhora dos desejos, dama da luxúria. Aguardo-te, anseio por teu toque, pelo perfume de tua pele, por teus lábios úmidos que me envolvem vagarosamente. Anseio pelo prazer que descobri apenas em ti e te entrego meu corpo e minha vida, para encontrar-te no mais doce sonho.
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Humilde Pedido – Lucas de Lima Rocha
25 palavras
Caro Morpheus,
Sinto falta de você e peço encarecidamente que volte a atormentar meus sonhos. Preciso de material para meu novo livro.
Ass: Neil Gaiman.
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Visita Surpresa - Rafael Bertozzo Duarte
147 Palavras
–Oi, Sérgio!
–Ai, que susto! O que você está fazendo aqui?
–Vim te visitar.
–Mas como você conseguiu entrar aqui?
–Sei lá! Acho que a porta estava aberta e fui entrando...
–Mas...
–Puxa, lugarzinho louco esse aqui, hein?
–Mas...
–Sabe? Até que eu gostei... arrumadinho... bem mais arrumado que seu quarto.
–Mas... não pode!
–Tá! Desculpe! Se não me quer já to saindo!
–Não é isso. É que não é possível!
–Como não é possível? Eu estou aqui, não estou?
–É que... é meu sonho! Como se entra no sonho de alguém? Isso é um sonho, é algo particular, só existe dentro da minha mente!
–Olha, se existe, eu estou aqui. Mas se não me quer, tudo bem. Fui! Não estou ofendida não. Se quiser passa lá no meu sonho que será bem-vindo. Passar bem!
–Espera! Cinthia! Como eu entro lá?
Tarde demais. Ela já tinha sumido.
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Aurora200 – Bruno Marchesi
200 Palavras
10.009DC: tmpo pouco ... devo
escrever estx mensagem ... todos. evento climático 2.109DC
reduzidos 1,5 milhão de espécims...
... ar virou que é hoje, 80% Hélio. prevermos tamanha catástrofe, o Prjeto Peão: rotação Terra teve aumentada,
Sol jamaiss entrasse
contato metade planeta. baixa temPeratura evitaria
combustão
oje chamammos 'heliosfera'.
.. rotação mantida torres meridiano 0,
um pólo a outro, controladas maior
computador
planeta, operado, ttodavia,
humanos.
'Calhoun tentava
concentrar botões e
números das torres seu setor, estava difícil. Difícl poque só Aideen
em sua mente, e só dela
seu coraçção. Mantinha, aind assim,
sob controle, sonnhando dia voltaria vê-la u tê-la bRaços.
tinha esquecido, mensagem chegou: "estou na borda, esperando".
Faltavam apenas 115 horas fim turno, sabia não poderia esperar, mesmo tão pouco ... mãos suavam lembrar quem conseguira acender seus sentimentos.
Col
ocou automático, montou em sua nave
partiu. Toda programação fez perfeita, porém para executá-la, precisaria apertado
«iniciar».
isso, torres seu setor não alteraram a força quando deveriam, junto outros setores,
sistema desequilíbrio.
nnnnada percebeu, pois estava já meio quilômetro sua amada, pode vê-la ao longe, com uma aurora que, depois três mil anos, nascia, mais uma e última vez.'
Diário comandnte: enviar cópia –t 8.000, coddnome "Aurora".
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Microconto Vencedor da Rodada
Sem título Um – Ana Cristina Rodrigues
27 Palavras
O mundo é meu. Caos e destruição assolam a humanidade. Até que o despertador toque e eu volte a ser apenas o Ajudante Bobo do Mago Malvado.
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Sem título Dois – Ana Cristina Rodrigues
25 Palavras
Eu sonhei e podia ser verdade. Sonhei com a sua morte. Quando acordei, cobri seu corpo com plantas e fugi para a Terra dos Sonhos.
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Sonho de um dia de verão – Álvaro Domingues
13 Palavras
De dia, alisando os lençóis, a camareira sonha acordada com noites de cetim.
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PRUDÊNCIA – Miguel Carqueija
69 Palavras
Nos meus sonhos com freqüência o Rio de Janeiro é assolado por uma onda-monstro que arrasa tudo, avassaladora e dantesca, surgida após a queda de um cometa no oceano Atlântico. O tsunami assassino engolfa, medonho e infando, as ruas e avenidas, os arranha-céus, os seres vivos, só se detendo na raiz da Serra dos Órgãos.
talvez seja tudo apenas um pesadelo. Por via das dúvidas, porém, mudei para Petrópolis...
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Epifania na mesa do bar - Carlos Relva
29 Palavras
Bebendo entre amigos, descobriu que tudo estava mergulhado na magia maya de Brahma, o caminho para a verdade elevada. Embriagou-se por idéias iluminadas! Esqueceu-as todas já na terceira cerveja...
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Europa - André Sionek
Não me surpreendo com histórias fantásticas, talvez por vivê-las. Anoto-as num rascunho, depois passo a limpo. Nunca me disseram que os acontecimentos extraordinários dos meus textos nunca ocorreram.
Hoje uma menina veio me visitar, foi obrigada pela professora da escolinha. Com o aparecimento do vírus, os robôs haviam colocado os últimos espécimes humanos em quarentena. A inseminação artificial automatizada resolvia o problema da reprodução sem contágio, porém os chips não conseguiam implantar humanidade nas crianças. Sem relações com semelhantes, elas viravam bichos. Pela vidraça da minha cela pude vê-la ao lado da professora eletrônica. Eu devia discorrer sobre sentimentos sem me prender ao passado.
Como de praxe, falei da raiva, do perdão e do amor. Detive-me neste último, discorri sobre a relação sexual, momento de maior intimidade entre duas almas. Ela ouvia atentamente, sabia o significado formal das minhas palavras, entretanto nunca poderia... Sentir. Quebrando os paradigmas, abriu os lábios e perguntou:
“Por que não posso... sentir isso?”
A professora a pegou pelos ombros, ia levá-la. Gritei antes de saírem:
“Vivemos em Europa, a última colônia habitável do sistema solar. Eles são o vírus! Faça algo!”
Diriam que escrevo sobre sonhos, eu afirmo que não. Talvez um dia possam contestar.
Para Destino - Carlos Relva
O inverno jaz
Nos sonhos primaveris
Vá Destino, vá!
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Supernova - Carlos Relva
Verão infernal
Um sol agonizante
No sopro final
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Haikai – Rafael Bertozzo Duarte
A mente da mentecapta
É a única mente que a mente
Do telepata não capta
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Sem Título – Aguinaldo I. Peres
Destino bate
A porta estremece
Ninguém atende
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Destino do Verão – Leo Carrion
Da copa com sono,
Folha morta cai.
Vai sonhando Outono
533 Palavras
Faria de novo o mesmo trajeto. Não podia ser. Além daquele beco molhado e
sujo, não havia nenhuma outra saída ou rua que pudesse ter tirado aquele
homem dali. Se não ele não se desintegrara no ar devia estar ali, talvez
dentro da caçamba de lixo ou atrás daquele sofá velho e rasgado que servia
de casa para vários gatos e ratos.
Não, desta vez ele não lhe escaparia. Ela queria ao menos agradecer e saber
se ele estava ferido. Fora uma briga feia aquela dentro do Foxxxy club. E
por mais que ela tentasse se convencer de que não era culpa dela, sabia que
tinha lá sua parcela nessa confusão toda, e sabia também que Dan, o gerente,
com certeza lhe descontaria o salário para pagar o prejuízo.
Roy sempre fora violento. Não passava de um bêbado psicótico que a
atormentava a vida mesmo agora que já não estavam mais juntos. Aparecia na
boate quase que todos os dias para vigiar Loo. No ultimo mês a situação só
piorou. Primeiro porque já tinha começado a temporada de chuvas, segundo
porque surgira na boate um estranho que comparecia todos os dias para ouvir
Loo cantar melodias de cabaré enquanto garotas loiras despiam-se e giravam
em postes. O sujeito aparecera justamente no segundo show que Loo fez no
Foxxxy. Ela dizia que fora promovida, uma vez que não mais precisava tirar a
roupa, mas no fundo sabia que não era lá uma grande inovação, pois ainda
trajava trajes mínimos e ainda tinha notas jogadas quase que em sua cara por
clientes bêbados. Loo sentia que estava fadada a mediocridade.
O tal de quem ninguém sabia o nome, e cujo rosto estava sempre na penumbra
parecia que anda constantemente em uma esteira. Movia-se fluidamente,
principalmente nesta estação do ano, quando a cidade de Intempera ficava
imersa na neblina baixa, ainda mais na área do cais. Dan dizia que aquele
cliente desconhecido parecia ter chegado com a primeira gota de chuva, que,
aliás, estava um mês adiantado, porque geralmente a temporada das águas só
começava em Dezembro.
Ninguém nunca havia ouvido o som de sua voz até esta noite, quando Roy
perdeu a paciência com Loo e arrancou-a de cima do palco. O cliente
silencioso saiu de sua mesa no fundo do lugar e lançando mão de uma
velocidade surpreendente atacou Roy pelas costas. Os dois caíram no chão em
uma luta patética, uma vez que Roy mais quebrava cadeiras do que
propriamente acertava o adversário. Quando os seguranças finalmente puseram
fim à briga, o estranho desapareceu como que num apagar de luzes.
Loo, que estava embaixo da marquise tentando fumar seu último Capri da
noite, na tentativa estúpida de se acalmar, viu um vulto passar, e dele
consegui distinguir somente os cabelos. Era ele. Ela precisava agradecer,
mas ao chegar ao beco ele sumira. A chuva ficou mais forte e uma rajada de
vento soprou subitamente os seus cabelos. Isso lhe trouxe uma sensação de
lembrança, mas não sabia do quê. Então ouviu uma voz atrás de si: - Já faz
tempo e essa carcaça de carne podre pode ter lhe tirado a memória, mas o que
me diz de uma ultima cavalgada, hein Valkíria?
MINICONTO - Somos todos iguais, meu irmão - Rafael Bertozzo Duarte
547 Palavras
–Aisolni, você sabe por que nós, os Tulips, somos diferentes de vocês, Nânimons?
–Você não consegue ver as diferenças, Spot?
–Não. Somos quase da mesma altura, temos olhos, boca, braços, cabelos... Alguns de nós são mais altos e mais fortes que muitos Nânimons, mas ainda assim, vocês é que nos controlam.
–É só isso que você vê? Não vê diferença nenhuma?
–Não. Exceto, claro, pelas roupas. As de vocês são novas, macias... e nós temos de usar essas roupas velhas de panos ásperos... Além disso, dormimos nas cavernas, enquanto vocês vivem nos palacetes que nós construímos.
–Isso é inveja, Spot?
–Pelos bigodes de Suth, Aisolni, não! Só quero entender as diferenças. Nós também temos inteligência, podemos ler, escrever, aprender como vocês, mas a escola nos é proibida. Se um de nós vestisse roupas bonitas, freqüentasse a escola e vivesse num palacete, quem seria capaz de dizer que era um Tulip?
–Não são só a roupa e a instrução que diferenciam Tulips e Nânimons, Spot. Se você quiser eu te dou roupas finas e te deixo ir comigo à escola. Talvez, então, você entenda.
Spot recebeu roupas novas de Aisolni e foi com ela à escola. Logo nas primeiras aulas percebeu que não era capaz de acompanhar as matérias. Apesar das roupas, todos o ignoravam como a um animal de estimação que acompanhasse a dona só para fazer companhia. Um macaco ou uma tartaruga. Alguns olhavam para ele e diziam: "Que bonitinho". E acrescentavam: "Olha, você o vestiu como Nânimon, Aisolni". Depois de alguns dias, porém, ninguém mais se dirigia a Spot como um Tulip. Ele começou a se sentir um verdadeiro Nânimon. E sua ama o deixava acreditar que eram iguais.
–Aisolni...
–Que é Spot?
–Eu já me visto como você, vou à escola como você... ninguém mais me acha diferente de você.
–Você acha isso, Spot?
–Acho. Eu sou igual a você, como havia lhe dito. Sou um Nânimon.
–Então, se você acha isso, aço que você se tornou um Nânimon, Spot.
–Somos irmãos, então?
–Sim, somos irmãos. Como você quiser.
–Posso dormir aqui dentro hoje?
–Pode, você é um Nânimon, deve dormir no palacete.
Naquela noite Spot não dormiu, apenas fingiu. Quando todos estavam dormindo se levantou e furtou dos armários todas as roupas que pôde carregar. Pegou perfumes, cremes, sandálias, pinturas e as levou às cavernas como tinha combinado. Os Tulips se banharam no rio Galvin e se vestiram e pintaram como Nânimons. Ninguém poderia perceber diferença.
Invadiriam os palacetes e tomariam o poder. Eram iguais. Esse separatismo era pura política. Os Nânimons criavam as leis a seu favor e os Tulips eram sempre discriminados, servos da poderosa minoria, como se fossem outra raça, outra espécie.
Spot chegou sorrateiro perto da cama de Aisolni, brandiu com força o machado e golpeou-a na barriga enquanto dormia. Era como se tivesse golpeado uma pedra. A moça abriu os olhos e se levantou serena. Meneou a cabeça e lamentou:
–Oh, Spot, eu achei que você era feliz. Dei a você tudo que quis. Cheguei mesmo a achar você ligeiramente parecido com um Nânimon.
E tocou-lhe a testa com o dedo fazendo-o evaporar numa inócua nuvem de pó branco que rapidamente se dissipou na atmosfera. Deitou-se e voltou a dormir sem derramar lágrima pelo seu animalzinho rebelde.
Detalhes:
Formato Paperback: 304 páginas
Editora: Eos (February 27, 1997)
Idioma: Inglês
ISBN-10: 0061053546
ISBN-13: 978-0061053542
Os maiores nomes de Horror e Fantasia em Sandman.
Uma singular coleção de histórias baseada no bestseller da DC Comics.
Sandman, de Neil Gaiman, é a mais bem sucedida HQ adulta de todos tempos. Os contos sinistros de Gaiman fizeram de Morpheus, Lord of Dreaming, um ícone reconhecido em todo o mundo. Agora milhões de novos leitores poderão também apreciar as criações premiadas de Neil Gaiman interpretadas por alguns dos mais imaginativos escritores da literatura moderna, em um das mais empolgantes coletâneas de talentos de toda a história das publicações. (Do editor)
· Clive Barker *Tad Williams
· Barbara Hambly * Gene Wolfe
· Nancy A. Collins * Tori Amos
· Charles de Lint * Steven Brust
Temas da 5ª Rodada
Prêmio Sandman de Neil Gaiman - Minicontos, Microcontos e Haikais
Minicontos (entre 450 e 550 palavras): “Mundo Mágico” gênero Livre
Microcontos (entre 1 caracter e 200 palavras): “Sonho” gênero Livre
ESPECIAL-2: HaiKai - tema "Destino"
O HaiKai deverá ser no formato tradicional (3linhas), forma livre, mas sendo sugerida a formatação tradicional (5 sílabas - 7 sílabas - 5 sílabas), podendo ou não apresentar rima.
Novamente uma rodada premiada!
Os vencedores da votação melhor mini e melhor micro estarão qualificados
para a disputa do Prêmio Sandman de Neil Gaiman que, através de votação de uma comissão de notáveis da Fábrica dos Sonhos (eu e o Charles), designará o grande-vencedor que, além do distinguido título, leva DE GRÁTIS um exemplar ESPECIAL de SANDMAN (mais detalhes em breve) entregue em suas mãos por um oficial dos Correios e Telégrafos Brasileiros (válido para operários que morem no Brasil).
Enviem seus haikais, mini e/ou microcontos até o dia 8 de JUNHO - SEGUNDA-FEIRA - SOMENTE PARA OS EMAILS leocarrion@hotmail.com E charlesdias@gmail.com
AVISOS IMPORTANTES E BASTANTE CHATOS - LEIA TODOS:
a) Atenção para os tamanhos regulamentares de cada modalidade (está escrito
depois do nome da modalidade, micro ou miniconto). Você é um escritor, tem que saber
lidar com limitação de tamanho de texto e ser esperto. Fique ligado, demonstre o porquê de você estar
na nata cultural;
b) Pode mandar quantos quiser. Se mandar mais de um dizemos obrigado. Se mandar mais de dois, obrigado e obrigado;
c) É muito complicado e burocrático mas mande os textos para ambos (Charles
e Leo). Somos desocupados mas às vezes um de nós tem que trabalhar e então o
outro precisa ter os textos para publicar no blog. Se você simpatiza apenas
com um dos organizadores, mande só para este. Ou se o texto for muito ruim,
mande só para o que vc não gosta. Mas nestes casos não garantimos sua
participação pelo motivo já explicado;
d) Gênero livre, "pero no mucho". Segundo decidido pela maioria dos
integrantes da lista que se manifestaram sobre o assunto, "livre" quer
dizer: FC, Fantasia e tolerado horror/terror. Se você é um destes teimosos
causadores de confusão e quiser mandar de outro gênero, não será expulso da
lista, nem deixará de participar do projeto. Mas pode ser menos votado por
isso.
e) Tente mandar o texto em anexo .doc, .rtf, .txt ou .odf. Não mande no
corpo do email. Ao que parece a pessoa que cola os textos no blog não tem a
habilidade que se espera e faz uma grande confusão caso vc mande no email
mesmo.
f) Para participar é obrigatório se inscrever antes na Fábrica dos Sonhos (www.fabricadossonhos.org).
g) Mande suas dúvidas para nós, não hesite! E participe.
Mais informações?
www.fabricadossonhos.org
http://minimicrocontos.blogspot.com
Renovação - Fátima Romani
82 Palavras
Qual grande Fênix renascida das cinzas a nave emergiu da nuvem de gás
em chamas, Libertos, enfim, do pesadelo da guerra.que os precipitara
naquela região do espaço, seus tripulantes, entre os quais poucos
podiam dizer que tinham experiência de combate, voltavam agora para
casa, sem saber o que ali encontrariam. Mas uma certeza lhes era
evidente:durante aquele combate haviam se transformado em novos seres
humanos, deixando para trás tudo que anteriormente os acorrentava e os
fazia considerarem-se superiores ao resto do Universo.
———«»———«»———«»———
A Mosca - George Amaral
27 Palavras
Quando o mundo facetado invadiu meus sentidos pela primeira vez,
arrependi-me de meus pecados. Mas ao ver a merda à minha volta como
dantes, senti-me em casa.
———«»———«»———«»———
TRANSPORTE - Clair Nery Cardoso
200 Palavras
MICROCONTO VENCEDOR
O cientista aproveitou que os colegas saíram e olhou para o aparelho do
outro lado da sala pensando:
"Se der certo, estarei lá em um instante..."
Apertou o botão vermelho e após uma tontura e desorientação, percebeu
que continuava no mesmo local.
"Não funcionou, mas estou inteiro" - pensou aliviado.
O dispositivo fez um enorme barulho e seus colegas entraram correndo.
- Não deu certo! - falou desconsolado.
Não deram atenção e foram para o outro lado. Tentou sair da cabine mas
não conseguiu.
- Alguém pode me tirar daqui? - gritou.
Todos estavam agitados em volta da outra cabine mexendo em algo. Alguém
acionou um alarme.
"Os idiotas acham que estraguei algo" - pensou.
Os que estavam próximos ao aparelho de recepção, afastaram-se para a
equipe médica passar. Ele notou um corpo caído no chão.
"Será que fui distraído a este ponto? Acionei o transmissor e alguém
estava trabalhando no outro lado?"
O trinco não funcionava. Só restou acompanhar à movimentação do outro
lado. Acionaram um aparelho de ressuscitação. Sentiu um puxão e notou
espantado que todos apareceram instantaneamente à sua volta. Confuso,
percebeu o alívio nos colegas e tentou entender como todos haviam se
teleportado pelo acionamento do ressuscitador.
———«»———«»———«»———
Sombras - Daniel Gomes
151 Palavras
O primeiro sentido foi o tato, o quente, o ardor, o suave, depois veio
à audição, os sussurros, as canções de ninar, os gritos, as juras de
amor eternas com prazo vencido, depois o olfato, o cheiro maravilhoso
da companheira, o asco depois duma briga, veio-lhe o paladar a seguir,
o doce sabor azedo do morango, o metálico sentimento da angústia se
dissolvendo em sua boca numa despedida, a visão preenchera o vazio da
escuridão que lhe envolvia durante todo o processo, não se sentia mais
perdido, mas, agora, estava só e triste, sem alma, sem coração, sem
lembranças, sem dúvidas, somente sendo a si o que é de si, uma sombra
do que já foi, numa outra vida que se passou.
Agora apenas sonha em ser humano, um sonho no qual todas as marionetes
tem e o é inatingível. Sonhos, a escuridão, os sentimentos, sentindo-se
pequeno e tudo sumindo ao seu redor. Somente uma sombra... somente uma
sombra.
———«»———«»———«»———
Renascer - André Sionek
4 Palavras
E o teto caiu.
———«»———«»———«»———
Tragédia singular - Carlos Relva
41 Palavras
"Quem são vocês?", perguntou a máquina aos arquivos antigos.
"Somos as últimas memórias humanas, digitalizadas. Renascemos aqui em
busca da vida eterna."
Mas a máquina achou aquelas memórias um tanto desnecessárias...
Não pensou duas vezes em ganhar mais espaço no HD.
———«»———«»———«»———
AVIS RARA - Miguel Carqueija
66 Palavras
O fazendeiro descobriu uma ave de espécie rara e estranha e
abateu-a com a sua espingarda. Entusiasmado, levou a ave abatida para
casa e, junto com a esposa, preparou-a para ir ao forno, como um peru.
Quando mais tarde abriram o forno, levaram tremendo susto e não
entenderam nada, pois a fênix, inteira e com todas as penas, pulou
fora, saiu voando e escapou pela janela.
———«»———«»———«»———
O céu que espere - Álvaro Domingues
15 Palavras
Não me importa que meu ciclo tenha terminado!
Fico por aqui, longe da velhas beatas!
Fátima Romani
No verão rubro
As ondas submergindo
O mundo todo
As folhas mortas
Levadas pelas águas
No outono mortal
Gelo profundo
Cobriu toda a Terra
Outra era glacial
No âmago da
Terra uma explosão se deu
E a vida voltou
———«»———«»———«»———
Daniel Gomes
O inverno é o ultimo
Onde o primeiro é o verão
E tudo se repete, se repete
———«»———«»———«»———
Discovery - Carlos Relva
Sempre inverno
Na nave eles hibernam
Como os ursos
———«»———«»———«»———
Verão Paulista - Álvaro Domingues
Manhã de Sol.
Escritório sem janela
Praia no descanso de tela
———«»———«»———«»———
Leo Carrion
No seu mais doce cheiro
Menina primavera
Sinto que borboleteio
472 Palavras
— Tem certeza que você pode controlá-los? — perguntou o leiloeiro.
— É claro! — respondeu o rapaz, irritado, estendendo a mão cheia de moedas. — Afinal, eu sou um mago.
— É que esses homens-macacos são perigosos, apesar de serem muito burros. Há de se ter muito cuidado.
— Não preciso dos seus conselhos. Agora pegue o dinheiro. Venci o leilão e quero minha mercadoria.
***
No escuro laboratório, preparou com cuidado a poção de controle. Seguiu à risca as instruções do livro de alquimia. Depois ficou em dúvida: como faria para administrá-la? Resolveu usar frutas. Injetou a poção em laranjas, maças e bananas. Colocou tudo em um balde e desceu até a masmorra.
— Hora de comer! — Gritou, enquanto derramava as frutas no coxo da jaula.
Os homens-macacos se aproximaram, pegaram as frutas e cheiraram. Ele sorriu satisfeito, achando que logo teria os novos escravos sob controle. Mas os macacos fizeram caretas e começaram a jogar as frutas nele, urrando e gritando:
— Nós querer carne!
Tentou se esquivar e proteger-se com os braços. As frutas duras o machucavam, melhor seria se estivessem podres. Encolheu-se atrás de um barril. Quando a saraivada de frutas acabou, levantou-se e foi em direção à escada, xingando os macacos. Com o fim da munição de frutos, eles lançaram mão das fezes à disposição na jaula.
Chegou lá em cima todo emporcalhado e fedendo mais que um gambá. Banhou-se em três águas para se livrar da sujeira e do cheiro, mesmo assim continuou se sentindo imundo.
E agora? Como faria para forçá-los a tomar a poção? Queria muito ter os macacos como escravos-zumbi. Era bem mais barato do que contratar guardas e servos humanos. Além disso, os colegas magos passariam a vê-lo com outros olhos por ser capaz de fazer aquela difícil poção.
Teve uma idéia: usaria carne moída. Comprou alguns quilos no açougue, pôs em uma bacia e derramou a poção sobre ela.
Desceu as escadas da masmorra sem fazer barulho e logo ao sair do corredor mostrou a bacia de carne, para evitar novo bombardeio de fezes. Os homens-macacos começaram a guinchar, felizes. Jogou a carne no coxo, eles devoraram tudo em poucos instantes.
Após um minuto passaram a exibir expressões hipnotizadas. O jovem mago ordenou:
— Levantem o pé direito — eles obedeceram. — Agora levantem o esquerdo — o mesmo, e todos caíram. — Vocês são muito burros mesmo! — zombou.
Abriu a jaula, contente. "Vou mostrar àqueles anciões do que sou capaz", pensou. "Quero ver eles falarem agora que preciso ter mais atenção nos meus estudos".
— Saiam.
Eles saíram em fila indiana. O jovem mago, com as mãos na cintura, observava-os satisfeito e sorrindo. De repente, pararam e olharam para ele, com sarcasmo e fome nos olhos.
— Mais carne — falou um dos macacos, arreganhando um sorriso.
Percebeu tarde demais que eles não eram tão burros assim, e que precisava realmente ser mais zeloso nos seus estudos.
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