543 palavras

Começaram os procedimentos automáticos para aterrissagem no planeta
alienígena. Treze anos, uma longa viagem!

Sempre vivi nesta nave, desde que nasci, confinada na cúpula branca que é o
meu mundo. Um mundo bem simples: um teto abobadado com luz central, que
passa a noção de dia e noite, e um chão circular e liso, suficiente apenas
para que eu possa caminhar e me exercitar.

Nunca tive permissão de tirar meu traje branco almofadado, que está ligado a
dois tubos. Um me nutre e o outro recolhe os meus dejetos. Por isso, não sei
como é meu corpo. Mas tenho uma vaga ideia, devido às formas do traje.

Também fico imaginando como é a Terra. Sei que é azul e rodeada de água. Os
áudios-aulas me ensinaram sobre isso. Assim como me ensinaram a falar e ter
noção das cores, auxiliados pela luz no alto da cúpula que pode adquirir
várias tonalidades.

Meus pais? Só conheço suas vozes. A de mamãe é carinhosa e triste...

Nas transmissões, eles dizem que me amam e que estou fazendo algo muito
importante. Mas não podem falar a respeito...

Muitas vezes chorei. Principalmente quando descobri que as outras meninas
têm uma vida bem diferente da minha. Quando choro, inclino a cabeça para que
as lágrimas caiam no visor e as observo enquanto são absorvidas pelo traje.
As lágrimas são tudo o que conheço de mim. Antes pensava que meu corpo era
formado por elas.

Perguntei a mamãe como poderia definir as lágrimas. Não tinha uma
referência. "Cristalinas", ela respondeu hesitante. Papai não gostou do que
ela fez. Disse que referenciais são perigosos.

Mas, por quê?

Minha nave acaba de pousar e pela primeira vez a cúpula se abre.

Sou recepcionada por alienígenas altos, com inúmeras pernas, finas e
alongadas. Seus corpos são vítreos e duros, como o visor do meu traje, e
amarronzados. Líquidos verdes fluem dentro deles.

Os alienígenas me mostram como se alimentam. Com os tubos em seus troncos
sugam criaturinhas azuis que são submersas no líquido esverdeado. Elas
gritam e se debatem, enquanto são lentamente decompostas. Também vejo como
nascem famintos, devoram suas próprias mães e irmãos mais fracos. E quando
já velhos e enfraquecidos fogem inutilmente de outros mais jovens que querem
desmembrá-los, para que morram rapidamente...

Tudo é novidade para mim. Tudo é belo e maravilhoso.

- Você é diferente - fala um dos alienígenas na minha mente, acho que de
forma telepática. - Há tempos, outros de vocês vieram nos visitar.
Imploravam ajuda para seu mundo. Mas ficaram horrorizados com o que viram
aqui. Tentaram dissimular, mas seus pensamentos eram claros: achavam-nos
monstros! Alguns de nós, envergonhados e ofendidos, acabaram por matá-los.
Mas vejo que vocês aprenderam a lição e agora nos vêm com outros olhos.

Diz que vão nos ajudar. Pergunto no que, mas a resposta é complicada demais
para mim.

Retorno ansiosa para a nave, acredito ter ganho o direito de conhecer meu
próprio corpo. Apressadamente me dispo, enquanto penso na longa viagem de
volta. Verei a Terra com meus próprios olhos! Ela é azul, mas essa ideia me
parece estranha. Afinal, se a Terra é rodeada de água, como a que brota de
meus olhos, não deveria ser cristalina como as lágrimas?

Estou desnuda. Oh! Então é assim que eu sou...

6 comentários:

ABELARDO DOMENE PEDROGA disse...

Carlos um bom início e um final que em minha opinião deixa a desejar. Não entendi direito o fato de sua protagonista não saber como é o formato de seu corpo nem o que isso tem de tão importante na estória. Está bem escrito, sem dúvida, mas falta "aquele algo a mais". Eu sinceramente não entendi o final do conto.

CARLOS RELVA disse...

Olá Abelardo!
Como o tema da rodada é "A beleza está nos olhos do observador", no meu conto desenvolvi a situação extrema em que a personagem principal conhecia muito pouco sobre o mundo e menos ainda sobre si. Assim, a humanidade se precavia de sua nova emissária ter ideias preconceituosas sobre os alienígenas telepáticos horrorosos (para os preconceituosos padrões humanos) e maior chance de sucesso na missão.
Um grande abraço e muito obrigado pelo comentário!

Aguinaldo disse...

A idéia do conto é incrível... só não sei se a reação final, ao retirar o macacão, foi condizente...
Esqueça o limite de palavras e reescreva o conto... quem sabe até num formato de diário...

Leo Carrion disse...

Carlos, dos melhores que já li na Fábrica. Idéia, execução e concisão. Miniconto perfeito, e dentro do tema. Eu cortaria a última frase. Parabéns, excelente.

Unknown disse...

Comunico que republiquei este conto,que diga-se, de logo, adorei, no meu blog recém criado. Obrigado. http://concisoeoconto.blogspot.com.br/

Rodrigo Rahmati disse...

Muito bom esse conto, mesmo. Parabéns!

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