515 palavras

Diziam-me que nada poderia mudar a vida de alguém. Que nada mudaria os desígnios de uma pessoa, mesmo que, por ventura, passassem anos, dias, meses e anos perdido em algum momento fugaz. Estas pessoas que me diziam isto estavam, por demais, erradas.
As condições, quando chegamos aqui, pareciam de um verdadeiro paraíso. As frutas, as árvores, a terra avermelhada e, em alguns locais, esverdeada, o ar puro, as chuvas torrenciais, tudo indicava que era um planeta ótimo para uma grande colonização, era.
Foi então que começaram as vozes na cabeça. Perturbações que vinham e iam sem qualquer explicação. O meu sangue fervia ao ver a tenente Rochelle ao passar na minha frente, ou quando o asco que eu sentia ao ver o comandante Telaz. Não sabia o que dizer, o que sentir. Era tudo, tão abstrato.
O pior foi a noite, os gritos, os urros, os sussurros, os passos descompassados, os suspiros, ninguém estava mais quieto no acampamento até, então, o primeiro estouro. Alex Munroe, um renomado cientista que estava com a gente, matou a pauladas Ellen Gris, a sua esposa. Tivemos que contê-lo numa prisão.
Mas tudo começava a piorar. Eu mesmo não conseguia mais me controlar. Não... não... eu não sou assim... não. Os dias... as noites... tudo passava tão devagar, tão primitivamente tedioso, mas só sentia vontade de esganar as pessoas, de sentir as mulheres, de... de ... arrancar estas vestes que... não... não sou assim... nunca fui assim.
Só me lembro que estão mortos agora... minhas mãos... sujas de sangue... cabelos, restos de pele... ainda sinto o sangue deles em minha boca, da pele macia delas em meus dedos... foi tudo tão rápido... neste estranho paraíso... não podia me conter. Não podia resistir... sinto muito... sinto...
O que eu poderia fazer? Mais nada... o impulso era... forte demais... elas me faziam isso. Eu tinha de fazer. Só minhas, somente minhas... não... não queria acabar desta forma... um monstro... algo que eu não sou... ou não deveria saber... pelos deuses... o que aconteceu aqui? Porque as minhas mãos... sangue... pele... macia... não consegui entender nada, nada que aconteça neste paraíso...
Por que? Aonde estou? Quem... por onde? Estes sentimentos não são... não deveriam ser meus... aqui é um paraíso... deveria ser era para ser... mas não o é, tudo está perdido, todos mortos, demência, alucinação, loucura coletiva...
Preciso ir, sair daqui... eu... não sou... nada.
(...)
O vídeo então parou de ser exibido. Todos naquela sala de conferência estavam atônitos com o que haviam visto.
- Ainda estamos analisando o que aconteceu no campo pré-colonia Ebonshire. Até o momento, o que podemos dizer é que existe uma espécie de patogênico aéreo que desliga aos poucos as áreas do cérebro que controlam os nossos atos conscientes, deixando a qualquer em contato com isto, violento, a um estado primitivo.
- Como um homem das cavernas?
- Precisamente. Então, por ordem maior, estamos revogando quaisquer viagens colonizadoras até que tenhamos maiores informações. Obrigado a todos.
Um a um os que estavam na sala se levantam. O último, ao sair, parecia ouvir um sussurro de longe.

3 comentários:

ABELARDO DOMENE PEDOGA disse...

Daniel, bom conto, profunndo, meditativo, algumas sacadas inteligentes. A explicação encontrada: um agente patogênico,no entanto deixa a desejar. Talvez uma raça ancestral que tenha se transformado em energia espiritual mas com uma consciência demente fosse uma alternativa. No mais está bem escrito.

Aguinaldo disse...

Gostei muito da primeira parte do conto, a forma como a narração vai perdendo a coerência... tem alguns problemas: Rochelle e Telaz (o nome não combina com os demais) aparecem e depois somem, deviam ser aproveitados mais a frente; ouvir vozes está mais ligado a doença mental que a supressão da consciência como explicado no final, ou seja, não combinou...
Entendo até o motivo por ter acrescentado a segunda parte, dar a entender que a doença chegará a Terra, porém é um final muito chocho para um começo tão forte... poderia inverter a ordem e acrescentar um final à ‘não havia ninguém para ouvir’

Dessanir disse...

Opa aguinaldo, realmente se fosse de forma invertida seria bem mais interssante, com passagens bem definidas no tempo. Creio que para uma proxima vez consiga colocar algo melhor, mas este conto, em particular, gostei de escrever.

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Abel, até que eu gosto dessa situação, mas, as vezes fica pouco crível por tudo culpa de um ser superior para com os problemas da humanidade. Mas fica registrado a sua sugestão. :D

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