Ontem vi um morto, atropelado, na Avenida.

Estava caído no asfalto, na frente da prefeitura, quando eu passei no ônibus.

Estranho como se presta atenção em detalhes bobos quando se trata da morte, não é amigo?

Naquele instante em que olhei para a direita para ver o que estava causando o engarrafamento e me surpreendi vendo o morto, minha mente fotografou a cena de uma forma que sei que não é o meu normal. Sabe como é?

Por exemplo: Lembro perfeitamente que o morto vestia sandálias, bermuda e tinha uma bolsa à tiracolo. Não vi o rosto porque tinha um policial tapando a visão. Mas era um rapaz jovem, a julgar pela pele que aparecia do joelho para baixo.

A morte deixa marcada a nossa mente, concorda? Eu sei que concorda, claro.

Hoje pela manhã, enquanto eu fazia a barba e ouvia no rádio o acompanhamento do cortejo fúnebre de um deputado, pensei de novo na morte.

Quando terminei a barba joguei água na cuba, para tirar o sabão. Fiquei esfregando com as mãos a louça da cuba, sentindo aquela sensação.

O toque frio, a água na palma das mãos.

Olhei-me no espelho e percebi que – eu - era o morto caído no asfalto. Era o morto sentindo saudade de quando estava vivo.

Não apenas estar com as pessoas que amamos, comer, foder ou ver coisas bonitas. Pensei que aquele morto lá no asfalto estaria sentindo falta de molhar as mãos na água e limpar a cuba fria depois de fazer a barba.

Isso se pudesse. Isso se não estivesse morto. Faz sentido para você, amigo?

A função não disponível, qualquer que seja, é muito boa, muito melhor do que não sentir nada, do que estar morto.

Você sabe que eu não acredito em fantasmas, gostaria muito de acreditar. Já te contei que quando minha avó morreu eu ficava imaginando se o fantasma dela apareceria em alguma foto que eu tirasse. Com o tempo deixei de tirar as fotos, porque ela estava em todas. É mais ou menos como procurar o rosto de Jesus na torrada ou nos nós da madeira de uma porta.

O que os mortos me ensinaram, meu amigo, é que o negócio é aproveitar cada instantezinho, cada sensação, cada pensamento enquanto estamos vivos. Até mesmo sentir a dor da traição da mulher e do amigo, até mesmo passar dez anos na cadeia, ou no inferno como seria melhor chamar aquele lugar.

Qualquer coisa é melhor do que não sentir nada. Melhor do que estar morto.

Não sei o que você sente meu amigo, mas eu vejo que está vivo, mesmo quieto no seu canto. Não pode negar isso. Tem várias funções disponíveis, eu vejo as enfermeiras te ajudando a fazê-las, mesmo que sua expressão seja vazia, eu vejo que você as aproveita.

Faz muito bem, já que não está morto, nem eu estou, ao contrário dela, que morreu. Vou ter que ir agora, amigo, até o próximo dia de visita. Vou levar flores para ela. Ela não sente, nem vê, nem nada. Mas gostava de flores, eu sei e você sabe. Quem sabe ela não sente saudades, do tipo saudade de pessoa morta. Mesmo se não puder sentir, nós podemos sentir por ela.

F I M

2 comentários:

Felipe disse...

Não utiliza o tema proposto. Ao se retirar a frase que inclui o tema, o sentido do texto não muda.
Algumas passagens são boas, como quando o protagonista lava suas mãos, mas se perdem num emaranhado de idéias e reflexões ( do autor ou do personagem ? )

Leo Carrion disse...

Qdo agente tem que explicar o texto, não é bom sinal. Mas a idéia é de um sujeito, falando com o amigo em coma no hospital. O sujeito que está falando se sente culpado, porque atirou no amigo (que ficou em coma) e na mulher (que matou), qdo pegou os dois juntos traindo. Então ele tem na mente o tema da morte, bem presente, e o tema da função indisponível é uma forma de convencer (o amigo e a si mesmo) de que o cara em coma é melhor do que morto... É isso. O tema proposto é o âmago do texto. Talvez não tenha ficado muito óbvio, mas tenho esperança que outra leitura faça vc entender melhor. Valeu pela opinião, abs. Leo

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