Hoje eu acordei com vontade de me matar. Nem abri os olhos por alguns minutos, vendo o vermelho que a luz gerava ao ser filtrada por minhas pálpebras. Depois, os abri lentamente. Vi meu reflexo no espelho do teto, meu corpo velho, mas nem tanto, pois eu vinha gastando bastante para me manter o mais jovem possível, dentro dos limites que a medicina era capaz e que eu podia pagar. Só conseguia enxergar minha idade real fitando meus olhos; o que vinha lá do fundo ainda era o verdadeiro eu, e minha verdadeira idade vinha junto.

— Tela.

O holograma retangular surgiu na minha frente.

— Buscar suicídio assistido. Site governamental.

O site apareceu na tela. Comecei a navegar com os olhos, piscando nos links, evitando a propaganda institucional, procurando as regras que realmente me interessavam. Era complicado. Muita coisa. Uma montoeira de artigos, parágrafos e alíneas. Porém, um artiguinho bem simples, bem fácil de entender, dava conta da possibilidade de haver permissionários para terceirizar o serviço.

— Buscar permissionário de suicídio assistido.

Apareceu uma lista e eu fui logo na primeira. Geralmente são os melhores. Ali as explicações eram mais diretas, fáceis de absorver, como eu estava acostumado. Naveguei até os formulários. Nossa, era muita coisa! Muita informação para preencher. Pedia informações sobre mim que eu nem lembrava mais, teria que procurar documentos velhos e obsoletos, que deviam estar escondidos em algum canto dos meus armários, se não houvesse jogado fora. Mas então vi um botão onde estava escrito “auxílio de preenchimento”, com um valor de 9,99 créditos ao lado. Acionei e autorizei o débito em seguida. Beleza! Alguma pesquisa inteligente obteve todos os meus dados. Já estava tudo preenchido. Enviei. Então a má notícia. O texto da tela informava que o procedimento teria que ser feito em um hospital credenciado, que eu teria que passar por uma entrevista com um psicólogo, com um psiquiatra, com um voluntário do Centro de Valorização da Vida, e por aí vai. E não devolviam o dinheiro caso o procedimento não fosse realizado. Nem mesmo a taxa de preenchimento automático.

— Ah, deixa pra amanhã! Desligar tudo! Sono!

Senti apenas por alguns segundos o leve vibrar da minha mente, enquanto as ondas eletromagnéticas do indutor de sono me faziam dormir de novo.

F I M

2 comentários:

Leo Carrion disse...

Bem escrito, interessante tb. O personagem é bem legal, e o futuro projetado é bem viável. Acho que deveria trabalhar melhor o motivo do suicídio, algo mais dramático. O fim tb não esta à altura do resto do texto, um pouco fraco.

Felipe disse...

Muito bom. Gosto de contos de FC que exploram o cotidiano das pessoas comuns, sem heróis, sem dramas. A visão de um futuro certinho, limpinho, onde até o suicidio é ISO 9000, é horripilante por si mesma.

Felipe Schmidt.

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