448 Palavras


Todos buscam respostas. Em buscar subjetivas, derivas iluminadas, ficções elaboradas de concepções de mundo ou no entusiasmo de uma multidão, todos os seres senscientes movem-se num eterno questionar. A partir das mais diversas indagações, percebem-se padrões; tramas estreitas de conexões sutis; estruturas subjacentes à mente humana capazes de delinear o passado, o momento e o devir, dar sentido ao mundo e fazer do caos cosmo.
Estas enigmáticas estruturas se manifestam em diferentes formas sensíveis, tais como os muitos temas de uma sinfonia que se interpenetram: o ondular de uma revoada de pássaros riscando o céu; o pulsar morno e tépido das entranhas de uma vida sacrificial; as sugestões pictogramáticas de folhas repousando no fundo de uma xícara; o brincar surrealista dos sonhos e visões; as coincidências numéricas; as posições incidentais de estrelas, runas e búzios derramados com um chiado solene em um círculo místico; as sábias palavras sagradas que dão voz ao Silêncio nas páginas de um tomo milenar ou de um jornal datado; as ferramentas sedutoras do Google ou dos códigos binários de realidades virtuais. Mas eu não busco nada, nem mesmo o absurdo.
Cessei minha busca há muito. Até então, apenas minha intuição me guiara em meu caminhar errante, com a precisão áspera do não-pertencer e a boa fortuna da inocência. Considerando-me acurada sensitiva, pela vida previ, mas não me preveni. Até que uma vez, quase como o cavaleiro de la Mancha que emergia das minhas histórias pueris, encontrei em minha senda um livro insólito que trazia o registro de tudo que foi, é e será, e principalmente as emanações do que poderia ter sido, e do que ainda poderia ser.
Folheei primeiramente as páginas do livro como uma criança que descobre suas asas, depois como um amante que advinha as formas delicadas sob o lençol, por fim como um jejuante diante da manifestação da santidade. Não apenas seu conteúdo descortinava o mundo lançando sobre minhas premonições a luz virgem da compreensão absoluta, mas a forma como cada imagem, idéia ou paixão vibravam nas curvas precisas da caligrafia integravam aquilo a que eu havia chamado de Ser nesse novo patamar da experiência.
Soube então que deixara em tal livro a mim mesma um sinal. Deste universo descrito em minúcias, minhas certezas provinham de um saber muito mais familiar que o mero antever dos fatos, um saber para além das percepções e categorias de tempo que me circundavam, pois não era eu um oráculo. Eu era a autora, e a última frase da última página era o vaticínio auto-imposto de viver apenas em minha criação e por ela limitada, em uma existência cuja saída estava selada inexoravelmente pelo último ponto final deixado no papel por minha pena.

2 comentários:

Leo Carrion disse...

Achei que vc escreve bem, tem cultura e uma certa elegância na escolha dos termos. Uma musicalidade compassada, ao mesmo tempo que uma repetição exagerada de adjetivos ou exemplos para suas idéias ao longo do texto, geralmente três deles para cada idéia expressada. Mas como miniconto faltou deixar transparecer melhor o conflito. Ficou mais uma digressão que serviria de introdução à um conto onde vc desenvolvesse este personagem, como um Deus.

ABELARDO DOMENE PEDROGA disse...

Achei denso e pesado para um miniconto. Esse estilo é mais adequado para textos bem maiores, onde haverá longas reflexões. Esta bem escrito, sem dúvida, mas a história é quase inexistente, há um que de filosófico. Enfim, algo bonito, sem dúvida, mas inadequado para esse estilo de projeto que é o miniconto.

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