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Já quase ninguém vê, mas acredite: aqui há centauros. Não como antigamente, não, claro que não é a mesma coisa. Naquele tempo eles eram muitos e andavam por aí à vista de todos orgulhosos e de cabeça erguida, como quem não deve a ninguém. Na verdade, talvez pensassem o contrário: os homens é que estavam em dívida. Eles é que tinham vindo de longe e se instalado, com seus filhos e rebanhos, no vale em que os centauros galopavam desde o início dos tempos. E que continuou a lhes pertencer, pelo menos durante algumas gerações, até que nossos bisavós os ocupassem com vinhedos e bosques de oliveiras.
Quando eu era menino, pastoreando as ovelhas de meu avô, era comum encontrar em meu caminho grupos de centauros. Por essa época eles já não corriam pelo vale com frequência, evitando conflitos com os lavradores que os queriam longe dos campos recém-plantados. Agora, seus cascos só pisavam as pedras e a grama áspera do monte, e os pastores seguravam seus cajados com força quando percebiam o som.
Não que tivéssemos motivo para temer os centauros. À exceção de umas poucas lavouras destruídas pelo tropel, não tinham feito mal a ninguém. No entanto, suas caras assustadoras – com olhos enviesados e dentes afeitos a triturar carne crua – e os braços poderosos, de veias como cordas de arco, eram o bastante para que os quiséssemos longe de nossas vistas.
E poucos anos depois surgiram os rumores – histórias que não presenciáramos, que não sabíamos sequer se verdadeiras, mas que ainda assim fizeram crescer o medo e a desconfiança. Em uma terra distante, ouvimos contar, centauros tentaram raptar a noiva de um rei; uma batalha se seguiu e foram justiçados, mas, num monte vizinho ao nosso, outro bando se apoderara de mais que uma pastora de ovelhas. O que fariam conosco, perguntávamo-nos, se cruzássemos com eles quando estivessem cheios de vinho?
A ideia era tão terrível que nem ousávamos responder em voz alta. Felizmente, o medo não pairou sobre nossas cabeças por mais que algumas estações: de um e de outro lado, pela boca de aedos e mensageiros que percorriam toda a Hélade, chegaram notícias sobre os heróis que, em guerras ou combates singulares, estavam exterminando toda a raça dos centauros. E que tinham jurado acorrer, com suas armas e a proteção divina, em defesa dos homens que se vissem à mercê daquelas bestas terríveis.
Então – na verdade não sei bem como as coisas se desenrolaram. Pode ser que algum daqueles heróis tenha estado no vale, sem que tenhamos chegado a vê-lo, e afugentado a maior parte dos centauros. Ou talvez tenham sido eles que, pondo-se a par das ameaças, decidiram abandonar o monte e se isolar em terras ainda mais remotas. De qualquer forma, raramente foram vistos desde então; e nunca mais, pelo que sei, nestes últimos anos.
Mas o que posso lhe dizer, por toda uma vida passada a ler os sinais, é isto: sim, aqui há centauros. Ainda se ouve muito ao longe o som de seus cascos nas noites sem lua. E se você persistir talvez chegue a vê-los, caminhando de olhos no céu, a procurar, talvez, a morada que os homens e os deuses lhes negaram sobre a terra.

13 comentários:

Aguinaldo disse...

- história simples, os comentários do narrador sobre os centauros ausentes... o problema é que fica tudo muito vago...
- bem escrito, algumas excelentes imagens, mas faltou mais emoção para esse tipo de texto...

Ana Lúcia Merege disse...

Obrigada pelo comentário, Aguinaldo. Especialmente o "excelentes imagens"... hehehe!

Sem querer justificar, talvez a falta de emoção seja porque o narrador não se envolveu, nem mesmo presenciou de fato a tragédia dos centauros... para ele é como contar um "causo", uma lenda local. Mas vou, sem dúvida, levar em conta a sua observação quando eventualmente retrabalhar o texto.

ABELARDO disse...

Não há dúvidas que o texto é interessante, mas a meu ver o narrador não tem certeza de nada, fica tudo no ar, sem uma argamassa sólida a autenticar tudo que é dito. Os centauros estão ali e de repente, após acontecimentos que se desenrolam a centenas senão milhares de quilômetros eles simplesmente somem sem que algum herói ou batalhão de soldados os combata. A história é bela, tem uma bom detalhamento de cenários, mas faltou ação.

Marcelo L. Bighetti disse...

Ana, sua história literalmente nos remete aos locais descritos de uma forma bem visual através de suas palavras. Consegui me imaginar neste cenário com a existência dos centauros mas o extermínio deles ficou meio vago e sem um argumento plausível para tal. Mas parabéns pelo texto.

Alvaro disse...

Muito bomo o texto. Concordo com a posição do Marcelo sobre as escolha de imagens, mas discordo em relação ao extermínio estar vao. O narrador é alguém que desconhece o que realmente aconteceu. Teria que ser vago mesmo. Parabéns pelo texto.

Bruce Leo disse...

Gostei bastante. Texto escrito com mão firme de quem, se fosse a proposta, poderia ter continuado até uma noveleta.
Parabéns.
A única sugestão que eu faria, sem nenhum demérito ao que foi feito, é que o narrador no final trouxesse um fato presencial da presença dos centauros, como a revelação de que o próprio hj é um centauro, ou de que há um centauro próximo e talvez seja o último que o narradora irá matar... Abs,

Miguel Carqueija disse...

Eu gostei, quanto ao aspecto "vago" diria que o tamanho-limite do texto não permitiu à autora maiores desenvolvimentos. É a narrativa saudosista de um mundo que se foi, onde existia uma outra raça inteligente.

DanielFolador disse...

Gostei do texto pq ele nos imerge bem naquele ambiente, falando de pastores, de vales e vinhedos. Sobre o aspecto vago, achei bem pertinente, já que se trata das divagações de um habitante daquela época, sobre o que viu acontecer, sobre o que ouviu falar, e sobre o que ainda acredita: que os centauros não foram exterminados.

Ana Lúcia Merege disse...

Gente, em primeiro lugar muito obrigada pelos comentários. Fico feliz por terem gostado.

A ideia de "vago", como muitas pessoas perceberam, tem a ver com o fato de o narrador realmente desconhecer o que aconteceu; é uma coisa de que ele ouviu falar, que não presenciou, sem falar na parte que aconteceu antes mesmo de ele ter nascido.

Com mais espaço eu optaria por contar melhor a história do rapto e do extermínio, mas ainda assim o velho pastor que o narrador é agora não teria tomado parte. Se bem que... gostei bastante da ideia de ele se revelar como um centauro...! :)

Mais uma vez, agradeço a leitura atenta e os comentários. Valeu mesmo!

Marcel Breton disse...

Ana, sou um fã de frases inicias que capturam o leitor em poucas palavras. São dificílimas de se criar e você conseguiu. Seu conto está muito bem escrito, com imagens bem poderosas, que evocam um tempo passado e quase esquecido. Parabéns pelo texto.

Lucas L. Rocha disse...

Belíssimo, Ana. O texto vai se desenhando a nossa frente aos poucos, mostrando bem o ponto de vista melancólico de uma pessoa que viveu em um tempo remoto. É interessante a narrativa curta em primeira pessoa, funcionou perfeitamente para a ocasião.

Me pareceu o prólogo de uma história maior, para falar a verdade. Caberia perfeitamente no começo de um livro, como o relato de um dos personagens. Mas, solto como um conto, também ficou ótimo.

DanielFolador disse...

Já eu acho que se o narrador fosse um centauro, o conto perderia metade da força.

Aliás, ele ganhou meu voto. Parabéns Ana!
(:

Angela Nadjaberg Ceschim Oiticica disse...

Lindo texto.

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