501 palavras

Aprendi a conviver com os bichos que minha filha traz para casa. Gatos, cachorros, algumas aves de diversos tamanhos. Consegui impor alguns limites e deveres para que eu pudesse me sentar no sofá sem me preocupar se estava sufocando o Mutley ou algum patinho. Mas quando ele trouxe o centauro, a coisa ficou difícil. Primeiro para aceitar a existência dele. Ainda que ele me estendesse a mão e me cumprimentasse com um “muito prazer seu Jorge”?
Ainda bem que minha esposa ainda não voltara do consultório. Como explicar isso pra ela? Talvez algo assim:
– Querida, a Shirley trouxe mais meio bicho pra casa ...
– Meio?
– A outra metade é humana...
Classificá-lo era outro problema. Não conseguia aceitá-lo como um animal, embora até pudesse xingá-lo disso. Não era um cão vadio, um gato abandonado ou mesmo um pônei para deixá-lo num canto e dar-lhe feno de vez em quando. Se não era um animal, era um homem. E estava na minha casa. Pelado.
Pedi para minha filha improvisar um manto para cobrir-lhe a parte inferior e emprestei-lhe uma de minhas camisetas. Pronto, graças à manta xadrez ele agora parecia mais um escocês bundudo que um centauro. Agora conseguiria conversar com ele.
– Pois bem, pelo visto minha filha já me apresentou. Eu gostaria de começar pelo seu nome.
– Sou Hipus Téticus, a seu dispor.
– Nome muito apropriado. De onde você veio?
– Tecnicamente, vim da Grécia. Mas, de fato, saí do inconsciente da sua filha.
– E você não pode voltar pra lá? – perguntei, mesmo sem entender o que se passava.
– Só se ela quiser.
– E por que raios você veio?!
– Ela quis, Uai!
– Assim, sem mais nem menos?!
– Para acalmá-lo, vou dar-lhe uma explicação técnica: Eu sou fruto de uma circunstância astrológica rara e a mistura dos sonhos e fantasias de sua filha.
– QUE sonhos e fantasias?
– Uma mistura de sonhos infantis com uma fantasia... ahn ligeiramente erótica ...
Meu queixo caiu
– Fantasia erótica? Mas ela só tem doze anos!
– Não! Seu estúpido! Ela JÁ tem doze anos. E, antes que você imagine algo errado e queira me trucidar, ela desejou, enquanto criança, montar um cavalo e, como adolescente, APENAS beijar um homem! E enquanto ela estava mudando de uma fantasia para outra, ocorreu o evento astrológico raro. Caracas! Você acha que eu gosto disso? Eu preferia ser o príncipe encantado montado à cavalo!
Minha filha ria como nunca enquanto eu ficava cada vez mais constrangido.
– Não se preocupe papai. Se você me prometer que vai vê levar pra dar umas voltas à cavalo e não brigar quando eu lhe apresentar meu namorado eu deixo o Hipus ir embora.
– Como assim namorado?
– Não se faça de besta! Eu estava fantasiando beijá-lo. Só que o imaginei um pouco mais velho e menos tímido. Um menino que eu gosto lá na escola, só que ele fica todo vermelho só de eu chegar perto.
Não tive saída não ser me render. Vi então Hipus sumir lentamente, piscando e mandando beijinhos pra minha filha, só pra me atormentar.

11 comentários:

Aguinaldo disse...

- taí uma situação para deixar qualquer pai de cabelos em pé... :)
- achei um pouco corrido no final, algumas explicações demais (quem sabe tira-las do dialogo e colocá-las como narrativa) e dar uma esticada para transformá-lo em conto...

Ana Lúcia Merege disse...

Um conto escrito mais ou menos no estilo, e com o mesmo tipo de humor, de Luis Fernando Veríssimo. Concordo com o Aguinaldo que ficou corrido; se for retrabalhado, dando mais atenção à narrativa, o ritmo ficará mais lento, o estilo mais elegante e o humor mais sutil.

ABELARDO disse...

Hilário e interessante. A idéia da conjunção astral com um misto de desejo reprimido da menina para dar vida ao centauro foi bem idealizada. Um conto despretencioso mas bem escrito e divertido.

Naná disse...

Inah disse:

Ótimo conto, humor sutil e bem escrito.
Entendo que poderia ser mais trabalhado, aproveitando melhor o final, menos corrido, mas valeu!
23/03

Marcelo L. Bighetti disse...

Alvaro, seu conto é bem descontraído e com ótimo humor. Concordo com os outros colegas onde o final ficou um pouco "atropelado".

Bruce Leo disse...

Eu gostei do final, do meio e do fim. Especialmente de algumas "tiradas" como ela meio que trouxe outro animal, porque a outra metade é humana. Isso é o que tem que ser nos minicontos Álvaro, vc pegou certinho. Excelente.
Eu só retiraria expressões como "uai" e "idiota" da boca do centauro.

Miguel Carqueija disse...

Gostei muito, um humor irônico que faz falta à nossa FC/fantasia. E mexe com aquela história de amigos imaginários, criados pelo subconsciente...

DanielFolador disse...

Engraçado e bem escrito, gostei muito do conto. O nome do centauro caiu muito bem, e (sendo chato) só não gostei muito do nome do Mutley (mesmo que venha do desenho). Isso atrapalhou a definir em que país se encontra o conto.

A idéia da fantasia misturada ficou interessantíssima, ainda mais quando o centauro se queixa em querer ser um príncipe a cavalo.

Eu só revisaria os diálogos, que ficaram um tanto atropelados e com expressões fora do lugar.

Parabéns!

Lucas L. Rocha disse...

Muito agradável a leitura, parece mais uma crônica do que um conto, mas mesmo assim achei sensacional.

O final ficou um pouco corrido, mas não achei excessivamente descritivo. Está na medida certa, uma boa metáfora carregada de muito humor. Parabéns!

Angela Nadjaberg Ceschim Oiticica disse...

Adorei o senso de humor na estória.

Marcel Breton disse...

Uau. Gostei muito. Parece mesmo com o Veríssimo, especialmente o humor rápido nos diálogos, e algo de Neil Gaiman. Tem o mesmo problema dos outros minicontos desta rodada: um pouco corrido para se adequar aos limites do formato, vale desenvolver um pouco mais a história. E eu também retiraria o "uai" e o "idiota" das falas do centauro.

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