543 palavras

Ele ouviu um trotar que vinha de algum lugar bem distante. A sua respiração bastante entrecortada mostrava como estava desesperado para chegar naquele lugar. Depois de várias tentativas finalmente achara uma trilha que pudesse seguir.

- Vamos andando... não temos o dia todo. – Disse uma moça com seus cabelos ruivos cacheados. – A nossa janela é muito pequena. – Continuou.

- É só seguir por aqui, eu mapeei toda a região durante um mês, não tem errata. – Falou um homem careca que aparentava ter meia idade. – Não mais distante que alguns clics.

- Vem cá, o que diabos é clics mesmo? Até hoje eu não entendi esta distância bem. – Perguntou ela curiosa.

Antes que pudesse abrir a boca o som de cascos batendo naquela terra árida e escura ficara bem mais alto que alguns minutos atrás.

- Venha, não temos mais tempo. – E a segurou pela cintura e com um grande impulso começara a correr. – Malditos seguranças-centauros da Shuray-Fujikawa. Se eles nos pegarem estaremos mortos.

E o velho correu como nunca tinha feito antes naquelas planícies de terra negra. Ao seu redor pequenos matagais junto com árvores frondosas se erguiam solenes e absortas do que acontecia ao seu redor.

Eles estavam se aproximando cada vez mais de uma construção, parecia um velho castelo a muito abandonado. As forças do velho começaram a se exaurir a cada passo, não tinha muito como continuar.

- Eles estão interferindo com o sinal, de alguma forma. – E tão rápido quando começara a correr, parara, soltando a ruiva. – Eles melhoraram ainda mais a segurança. – Disse soltando a moça. – não posso continuar neste ritmo.

Quando terminou a frase eles ouviram que os galopes pareciam seguir numa outra direção, ou, pelo menos, assim achavam.

- Creio que eles estejam nos procurando em outro lugar. – A moça sussurrou brevemente. – Ou não sabe que estamos aqui.

- Muito difícil. Se não, impossível, que não saibam que tem gente invadindo os sistemas. – E se levantou. – Mas não temos alternativa. – E foi em direção ao castelo abandonado.

Ao chegar no portão daquela construção esquecida pelo tempo, o velho tocou a superfície asquerosa daquela entrada de madeira e ela se modificou gradativamente sumindo entre cores azuis, verdes e amarelas.

- Estão modificando o cyber-espaço. – Disse a moça se aproximando também. – Agora eles sabem que estamos aqui.

- Sempre sabemos. – Uma criança montada num centauro falara por detrás deles, os dois se viraram e não poderiam deixar de se maravilhar com a imagem mítica de um centauro cibernético. – Sou Alexa. – Disse a jovem com os seus olhos negros tristes. A sua voz parecia vaguear num som de luto complacente. – E me desculpem pelo terei de fazer.

Os dois engoliram a seco. O velho tentou, com uma lança, desferir um golpe no centauro, mas uma espécie de escudo invisível o circundava quebrando-a. A jovem com uma faca tentara arremessar a mesma contra a criança e também teve o golpe debelado.

- Sejam felizes no outro mundo. – E a criança fechou os olhos e sem poderem se mover, foram pisoteados pelo centauro. A menina olhou um pouco para cima e falou. – Fiz o que me foi ordenado, meus senhores. Ninguém chegará perto dos tesouros.

E quando o centauro galopava para local desconhecido a menina por último disse – Eu sinto muito.

515 palavras

Diziam-me que nada poderia mudar a vida de alguém. Que nada mudaria os desígnios de uma pessoa, mesmo que, por ventura, passassem anos, dias, meses e anos perdido em algum momento fugaz. Estas pessoas que me diziam isto estavam, por demais, erradas.
As condições, quando chegamos aqui, pareciam de um verdadeiro paraíso. As frutas, as árvores, a terra avermelhada e, em alguns locais, esverdeada, o ar puro, as chuvas torrenciais, tudo indicava que era um planeta ótimo para uma grande colonização, era.
Foi então que começaram as vozes na cabeça. Perturbações que vinham e iam sem qualquer explicação. O meu sangue fervia ao ver a tenente Rochelle ao passar na minha frente, ou quando o asco que eu sentia ao ver o comandante Telaz. Não sabia o que dizer, o que sentir. Era tudo, tão abstrato.
O pior foi a noite, os gritos, os urros, os sussurros, os passos descompassados, os suspiros, ninguém estava mais quieto no acampamento até, então, o primeiro estouro. Alex Munroe, um renomado cientista que estava com a gente, matou a pauladas Ellen Gris, a sua esposa. Tivemos que contê-lo numa prisão.
Mas tudo começava a piorar. Eu mesmo não conseguia mais me controlar. Não... não... eu não sou assim... não. Os dias... as noites... tudo passava tão devagar, tão primitivamente tedioso, mas só sentia vontade de esganar as pessoas, de sentir as mulheres, de... de ... arrancar estas vestes que... não... não sou assim... nunca fui assim.
Só me lembro que estão mortos agora... minhas mãos... sujas de sangue... cabelos, restos de pele... ainda sinto o sangue deles em minha boca, da pele macia delas em meus dedos... foi tudo tão rápido... neste estranho paraíso... não podia me conter. Não podia resistir... sinto muito... sinto...
O que eu poderia fazer? Mais nada... o impulso era... forte demais... elas me faziam isso. Eu tinha de fazer. Só minhas, somente minhas... não... não queria acabar desta forma... um monstro... algo que eu não sou... ou não deveria saber... pelos deuses... o que aconteceu aqui? Porque as minhas mãos... sangue... pele... macia... não consegui entender nada, nada que aconteça neste paraíso...
Por que? Aonde estou? Quem... por onde? Estes sentimentos não são... não deveriam ser meus... aqui é um paraíso... deveria ser era para ser... mas não o é, tudo está perdido, todos mortos, demência, alucinação, loucura coletiva...
Preciso ir, sair daqui... eu... não sou... nada.
(...)
O vídeo então parou de ser exibido. Todos naquela sala de conferência estavam atônitos com o que haviam visto.
- Ainda estamos analisando o que aconteceu no campo pré-colonia Ebonshire. Até o momento, o que podemos dizer é que existe uma espécie de patogênico aéreo que desliga aos poucos as áreas do cérebro que controlam os nossos atos conscientes, deixando a qualquer em contato com isto, violento, a um estado primitivo.
- Como um homem das cavernas?
- Precisamente. Então, por ordem maior, estamos revogando quaisquer viagens colonizadoras até que tenhamos maiores informações. Obrigado a todos.
Um a um os que estavam na sala se levantam. O último, ao sair, parecia ouvir um sussurro de longe.