523 Palavras

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529 Palavras

Quando seus pais compraram a casa que um dia pertencera à família de Wendy, a mudança para Inglaterra pareceu menos pesada para Alice. Apesar de não ser mais criança, ainda era excitante poder deitar na cama de Wendy e dormir de vez em quando com a janela aberta, às espera de Peter Pan. "Isso nunca aconteceria", pensou.

Mas um dia quando Alice iniciou seu caminho de volta das aulas sozinha, alguém lhe passou a mão. Virou-se a procura do atrevido e não viu nada. Seguiu o caminho, disposta a dar um soco no safadinho. Apesar da atenção redobrada, o safado tocou-lhe os seios! Vermelha de raiva e de vergonha, com a mão espalmada pronta para um bofetão.... e nada! O espertinho era rápido demais.

O assédio a acompanhou até sua casa, irritando-a muito. Ao entrar, tentou se certificar de que ninguém a espreitava, e entrou de pressa. Mas sentiu que alguém invisível passar por ela, tomando a dianteira.

Durante o jantar, ficou calada. Seus pais estranharam e perguntaram sobre a causa. Após algumas evasivas, eles a deixaram em paz.

No quarto, teve sonhos eróticos. Já os tivera antes, mas não daquela forma. Muito realistas e um sexo intenso e constante. Isso a assustou mais do que excitou. Levantou-se sobressaltada e acendeu a luz da cabeceira. A luz iluminou-a e mostrou sua sombra na parede. Ela custou a conter um grito que se formava em sua garganta. Sua sombra estava em louca orgia com a sombra de um rapaz!

Procurou aterrorizada em seu quarto quem projetava aquela sombra e não viu ninguém. Tentou se acalmar e com a cabeça um pouco mais fria, lembrou-se do início da aventura de Peter Pan. A sombra fujona!

Correu então abrir a janela. Peter Pan que viesse e levasse embora aquela sombra safada!

Não precisou esperar muito. Pela janela entrou voando um rapaz de cerca de 16 anos (Peter crescera!). Foi direto à sombra, tentado arrancá-la força de suas atividades mais interessantes.

Alice trancou a janela. E gritou:

-- Peter! Seu safado!

Ele olhou assustado. Gaguejou tentando se desculpar e ficou rubro como uma maçã. Alice riu e disse:

-- Sua sombra é mais esperta que você!

Ele a olhou encabulado e respondeu:

-- Desculpe por ela! Ela tem me dado muito trabalho. Wendy a costurou para mim, mas a linha esgarçou com o tempo. E toda vez que ela foge de mim, vem pra o mundo real. E indo atrás dela eu cresço um pouquinho... Se ela fugir mais uma vez, não conseguirei voltar à Terra do Nunca. Você me ajuda?

Alice pegou a sua cesta de costuras. Tirou de lá de dentro uma tesoura e cortou a ligação com sua própria sombra!

Peter olhou-a incrédulo e reclamou:

-- Sem minha sombra não posso voltar a Terra do Nunca!

Alice sorriu e o beijou. Ela percebeu sua relutância.

-- Peter, crescer é uma aventura maravilhosa!

E novamente o beijou.

Sua janela tem ficado sempre aberta. Seus amigos passaram a estranhar por que ela não faz sombra. E a polícia tem relatado ações de um ladrão muito esperto e fugaz, tão fugaz que as vítimas relatam que ele sai voando da cena do crime...

543 palavras

Começaram os procedimentos automáticos para aterrissagem no planeta
alienígena. Treze anos, uma longa viagem!

Sempre vivi nesta nave, desde que nasci, confinada na cúpula branca que é o
meu mundo. Um mundo bem simples: um teto abobadado com luz central, que
passa a noção de dia e noite, e um chão circular e liso, suficiente apenas
para que eu possa caminhar e me exercitar.

Nunca tive permissão de tirar meu traje branco almofadado, que está ligado a
dois tubos. Um me nutre e o outro recolhe os meus dejetos. Por isso, não sei
como é meu corpo. Mas tenho uma vaga ideia, devido às formas do traje.

Também fico imaginando como é a Terra. Sei que é azul e rodeada de água. Os
áudios-aulas me ensinaram sobre isso. Assim como me ensinaram a falar e ter
noção das cores, auxiliados pela luz no alto da cúpula que pode adquirir
várias tonalidades.

Meus pais? Só conheço suas vozes. A de mamãe é carinhosa e triste...

Nas transmissões, eles dizem que me amam e que estou fazendo algo muito
importante. Mas não podem falar a respeito...

Muitas vezes chorei. Principalmente quando descobri que as outras meninas
têm uma vida bem diferente da minha. Quando choro, inclino a cabeça para que
as lágrimas caiam no visor e as observo enquanto são absorvidas pelo traje.
As lágrimas são tudo o que conheço de mim. Antes pensava que meu corpo era
formado por elas.

Perguntei a mamãe como poderia definir as lágrimas. Não tinha uma
referência. "Cristalinas", ela respondeu hesitante. Papai não gostou do que
ela fez. Disse que referenciais são perigosos.

Mas, por quê?

Minha nave acaba de pousar e pela primeira vez a cúpula se abre.

Sou recepcionada por alienígenas altos, com inúmeras pernas, finas e
alongadas. Seus corpos são vítreos e duros, como o visor do meu traje, e
amarronzados. Líquidos verdes fluem dentro deles.

Os alienígenas me mostram como se alimentam. Com os tubos em seus troncos
sugam criaturinhas azuis que são submersas no líquido esverdeado. Elas
gritam e se debatem, enquanto são lentamente decompostas. Também vejo como
nascem famintos, devoram suas próprias mães e irmãos mais fracos. E quando
já velhos e enfraquecidos fogem inutilmente de outros mais jovens que querem
desmembrá-los, para que morram rapidamente...

Tudo é novidade para mim. Tudo é belo e maravilhoso.

- Você é diferente - fala um dos alienígenas na minha mente, acho que de
forma telepática. - Há tempos, outros de vocês vieram nos visitar.
Imploravam ajuda para seu mundo. Mas ficaram horrorizados com o que viram
aqui. Tentaram dissimular, mas seus pensamentos eram claros: achavam-nos
monstros! Alguns de nós, envergonhados e ofendidos, acabaram por matá-los.
Mas vejo que vocês aprenderam a lição e agora nos vêm com outros olhos.

Diz que vão nos ajudar. Pergunto no que, mas a resposta é complicada demais
para mim.

Retorno ansiosa para a nave, acredito ter ganho o direito de conhecer meu
próprio corpo. Apressadamente me dispo, enquanto penso na longa viagem de
volta. Verei a Terra com meus próprios olhos! Ela é azul, mas essa ideia me
parece estranha. Afinal, se a Terra é rodeada de água, como a que brota de
meus olhos, não deveria ser cristalina como as lágrimas?

Estou desnuda. Oh! Então é assim que eu sou...

534 Palavras

MINICONTO VENCEDOR DA SEGUNDA RODADA!!!

Lanço as pedrinhas no chão da minha cabana. Caprichosas, continuam a não dizer o que eu quero saber. Parecem debochar de mim.
Lá fora, a chuva continua a cair.
Kalenna entra, esbaforida.
“É hora, irmã, você tem a resposta?”
Não preciso responder, pois meu desespero é transparente. A caçula da família abaixa os olhos e eu sei que tenta conter as lágrimas.Para evitar que ela se humilhe ainda mais, viro as costas e começo a entoar um cântico. Escuto Kalenna sair da cabana e me visto, devagar, sempre cantando. É a hora.
Prendo o colar azul, herança de nossa mãe. Pinto a pelagem ao redor dos olhos em um tom dourado, a cor da morte. Finalmente respiro fundo e saio. O ar frio é um golpe na minha pele, mas me mantenho firme. Parados ao redor da fogueira tribal estão os Senhores do Céu, aqueles que nasceram com asas. O líder deles me encara, um sorriso no seu rosto de águia.
“Como é feito há séculos e milênios, viemos buscar a resposta à nossa pergunta, Profetisa. É quarta noite do plenilúnio, então diga: qual dos filhos de Margoth irá sucede-la?”
Eu não posso mentir. A mesma força que me orienta nas profecias impede que diga qualquer coisa além da mais pura verdade. Tento não tremer tanto e digo.
“A resposta não foi concedida.”
Os homens-águia se enfurecem. Escuto seus guinchos encherem o ar enquanto o líder deles, em silêncio, apenas me encara sorrindo.
“Vocês, povo-macaco, vivem nas bordas do nosso território apenas por nossa bondade. Somos generosos, damos todas as facilidades que podem precisar... e só pedimos uma pequena retribuição anual.”
Mordo os lábios, sem me importar com a dor que os dentes afiados causam. Minha mãe morreu jovem demais, sem ter tido tempo para me ensinar todos os caminhos. E na primeira vez que meus poderes foram necessários, eu falhara vergonhosamente. Meu povo não me encara, porém vejo o tremor em seus corpos. Eles tem medo – e eu também.
“Profetisa, sabe qual o preço do seu fracasso?”
Sei, mas prefiro ficar em silêncio. Quem sabe os deuses dêem algum sinal. O homem-águia sai da sua posição e anda pela aldeia, encarando o meu povo.
“O preço é sangue, sangue do povo-macado.”
Ele para na frente de Mallenna, minha irmã. Tenho que fazer algo, preciso... Ele é rápido demais, um predador nato. Com as garras, arranca o coração de minha irmã. Os olhos de Mallenna arregalam-se de susto e o corpo cai, pesado, aos pés de seu assassino. O sangue mancha o chão em padrões estranhos e eu olho, hipnotizada.
E finalmente, os deuses falam. A profecia vem, com força, me arrastando em seu turbilhão de imagens. Rosno, os dentes a mostra.
“Tenho agora a sua resposta. Nenhum dos filhos de Margoth irá reinar, porque o povo-macaco irá matá-los...”
Pulo no pescoço do homem-águia, que não esperava um ataque. Meu povo ataca os demais, ferozes e sem temor pois confiam em minhas palavras.
Somos muitos. O sangue das aves é doce e eu urro de prazer com a vingança conseguida. Não me importo se amanhã os demais virão para acabar conosco – e eu sei que eles virão. No momento, só me importa o presente.

MINICONTO VENCEDOR DA PRIMEIRA RODADA!!!!


Na ampulheta, a areia escorria, o tempo acabava. As hordas inimigas haviam atravessado o fosso e a primeira muralha.

Os magos do reino se reuniam no calabouço em torno de seus instrumentos milagrosos. Buscavam um encantamento que acordasse o dragão ou o gigante. Malik, com as mangas arregaçadas e presas com tiras de couro, gesticulava freneticamente com os dedos invocando o oráculo sem sucesso. Ora a divindade se recusava a responder, ora suas respostas não tinham nexo.

- É inútil! Sem o verdadeiro nome das bestas o oráculo não responderá – o mago apoiou a cabeça nas mãos, desconsolado.

- Raios! Raios múltiplos! – praguejou Darien, o decano dos magos. – Centenas de anos estudando a língua dos deuses e sabemos tão pouco. Se ao menos tivéssemos compartilhado o conhecimento...

- E perdermos nossa posição? Nunca! – Malik se ergueu furioso. – Prefiro morrer aqui e agora.

Darien acalmava o colega quando um acólito chegou correndo pelas escadarias de pedra.

- Mestre Turin descobrir o nome do gigante. É Vactiv!

Os olhos de Malik brilharam com esperança e ele imediatamente recomeçou sua mímica para falar com os deuses através do oráculo.

- Que os deuses sejam louvados! – alegrou-se Malik. – Rápido! Pergaminho e tinta!

Com habilidade, o mago traçou as letras e desenhos do encantamento. As fórmulas mágicas eram complicadas, algumas tão absurdas que ele rogava aos deuses para Turin ser capaz de decifrá-las. Secou a tinta com mata-borrão, enrolou o pergaminho e o entregou ao acólito.

- Rápido! Entregue o encantamento para o Mestre Turin. Que ele acorde o gigante e o guie contra nossos inimigos.

O acólito saiu correndo, subindo as escadas, em direção à torre onde o gigante dormia.

- Agora é rezar e esperar – disse Darien com a mão no ombro de um exausto Malik.

E eles esperaram no silêncio do calabouço enquanto a areia escorria marcando a passagem inexorável do tempo.

Subitamente um estrondo! E o calabouço tremeu e parte da argamassa do teto se desprendeu levantando uma nuvem de pó. Os magos se ergueram do chão tossindo. Confusos, tentavam entender o que se passava. O encantamento teria falhado? De tempos em tempos escutavam barulhos vindos de acima. O inimigo estaria destruindo o castelo?

Não demorou muito para o mago Turin surgir afobado, roupas rasgadas e cabelos desregrados.

- Malik! Darien! O gigante expulsou os invasores, mas agora ele se voltou contra nós. Está louco! Preciso de um encantamento para colocá-lo a dormir.

O mago se posicionou de frente ao oráculo, ajeitou as vestes com um safanão, e com os dedos traçou os símbolos cabalísticos. Parou assustado. Recomeçou, os dedos dançando nervosamente. O suor abria sulcos na poeira pelo rosto iluminado pela atemorizante luz azul. Era o fim. O oráculo somente fornecia uma resposta: FUNCTION NOT AVAILABLE.

F I M