550 palavras

_Já dizia o Zé Trindade "beleza é fundamental".
_Meu filho não diga isso, é pecado.
_Digo sim padre, prefiro queimar no inferno a viver com aquela megera.

Malaquias seguia inconformado. Com tantas mulheres lindas no mundo, porque a
sua tinha que ser tão feia ? Depois de uns anos de casada, dona Filomena
relaxou um pouco.

No analista.

_A beleza está nos olhos de quem vê, uma pinóia. O Dr. fala isso porque não
tem que que olhar pra cara dela todos os dias. Fica com ela, contrata como
secretária. Não vai ficar um cliente.

O divórcio não era opção, ele casara por dinheiro. Plástica ali não ia
resolver, nem obra de metrô movimenta tanto material.

Começou a matutar um jeito de se livrar daqueles 160 quilos de feiura. Não
era tanto o tamanho, ela era feia mesmo. E o gênio então...

"Deus descarregou todo seu desgosto por ter criado a humanidade, nela."
Ruminava.

Andou por tudo, áreas de drogados para ver se conhecia alguém para fazer o
serviço. Todos raquíticos, um peido de Filomena bastaria para derrubá-los.

Procurou nas lojas de cutelaria. O problema era se livrar do monte de banha
morta.

Foi ao ferro velho, já cansado de tanto procurar.

_Esse micro-ondas está quase novo!

_Não é um micro-ondas, é um tele-transportador, só que está com defeito de
isolação e está tele-transportando objetos externos também. A pessoa que
jogou fora perdeu as chaves do carro e um cão São Bernardo._ Mentiu o senhor
que cuidava da loja.

Malaquias se interessou.

_ São Bernardo é grande. Será que transporta um vaca, quero dizer, um
bezerro de 160 quilos ?

_ Só se ligar no 220V. Mesmo assim não garanto que saia do outro lado.

_ Como assim ? Perguntou curioso.

_ O objeto entra numa outra dimensão, o limbo, e volta para a nossa em outro
lugar. Se o equipamento não tiver força suficiente entra no limbo e não
volta mais. _ Explicou em linguagem simplória. _ Fica lá para sempre.

_ Vou levar.

Escondeu por uns dias no escritório e, no dia do aniversário de casamento,
deu de presente o micro-ondas.

_ Calma que o técnico vem instalar, esse é de alta potência e vai ter que
trocar a tomada.

Aproveitou um dia que a mulher fora visitar a mãe e instalou o "micro-ondas".
Telefonou logo para a mulher para dar a boa notícia.

Programou o videofone de casa para lhe chamar assim que a mulher chegasse,
o que aconteceu no final da tarde.

Esperou um tempo e ligou de novo. Nada... Ligou mais umas tres vezes no
espaço de uma hora para ter certeza.

Malaquias não se aguentava. Enfim a liberdade, iria direto do trabalho para
a farra. E não seria um puteiro virtual, iria direto para o centro velho
onde ainda haviam prostitutas em carne e osso.

Bebeu todas.

Voltou com uma loira e uma ruiva.

Encontrou a casa às escuras. Entrou pela sala, no maior carnaval, quando
ouviu:

_ Essa porcaria do seu microondas queimou o fusível geral.

Malaquias ficou paralisado. Quando a lanterna iluminou seu rosto, estava
branco.

Não via nada com a luz na cara. Não deu para ver quando ela levantou o
braço. Uma bofetada de Filomena mandou Malaquias para outra dimensão,
provavelmente para o limbo. O sujeito nunca mais foi visto.

547 Palavras



Frank arriscou uma última olhada pela janelinha do avião. A imensidão da floresta amazônica provocou um nó na garganta, sabia que era questão de anos para virar apenas cartão postal.

Jamal, um cientista que conhecera na Índia, explicou que o conhecimento de Frank era vital para desvendar os segredos de uma descoberta sua. Frank, perito em interfaces bio-digitais, não entendia como suas habilidades seriam úteis na amazônia.

Jamal o recepcionou no aeroporto.

—Como foi o vôo? Seguiremos de barco.

Do uísque 18 anos a cachaça de alambique. Frank era prático, podia ser uma coisa na cidade mas no mato virava um matuto, adaptado as condições rudes do ambiente.

—Estou em “survive mode”. Brincava Frank.

Chegaram ao local da escavação. Frank dirigiu-se rapidamente a câmara subterrânea sob a pirâmide, que estava encoberta pela mata.

―Não sou arqueólogo mas isso aqui não tem nada de Maia. Nem parece com nada da Terra. Disse Frank.

Vestiu algo parecido com um capacete e reconheceu imediatamente a sensação provocada pelas interfaces bio-digitais.

―Estamos diante de uma descoberta que pode mudar a história da humanidade! Disse exaltado.

Entrou em “god mode”. Pensou Jamal.

Nos dias que se sucederam Frank passou maior parte do tempo nas catacumbas.

Um dia saiu como louco:

―Está operando. O artefato é um comunicador e consegui um contato. Vou distribuir as anotações da conversa.

Tumulto geral. Frank não se abalou e foi cochilar, sua missão tinha terminado. No fim da tarde pregou no mural:

Reprodução do diálogo :

Frank― Meu nome é Frank, da Terra.

PK: ―Me chame de planet keeper. Cada planeta tem um responsável. Nós monitoramos o desenvolvimento dos planetas e sabemos que está na terra.

Frank: ―Você é uma pessoa ?

PK:― O que é uma pessoa ? Seu corpo, sua mente, suas memórias ?

Frank― Uma máquina ? Um computador ? O que você faz ?

PK― Uma máquina biológica como você. Estamos acompanhando a evolução da Terra.

Frank: ― Vocês já estiveram na Terra ? Como isso veio parar na terra?

PK: ―Nós só monitoramos. O governo coloca as sondas. Não sei quando este equipamento foi enviado.

Frank:― Qual o interesse pela Terra ?

PK:― Nenhum interesse específico, simplesmente monitoramos todos que estão ao nosso alcance. Parecido com o que vocês fazem com objetos celestes do seu sistema solar. Com base nos dados que eu coleto, estudiosos podem identificar riscos ou oportunidades.

Frank: ― Conclusão sobre a Terra ?

PK:― Como disse, não faço análise, só monitoro.

* * *

―Os indígenas estão achando que você falou com Deus. Estão com medo.
―Bobagem, com isso não se brinca. Disse Frank, sério. ―Você já pode assumir os contatos Jamal, a máquina tem tradução automática.

Frank imaginava várias possibilidades: um alienígena em outro planeta, um computador em outro planeta ou na terra.

―Eu aposto que é um computador deixado na Terra. Finalizou Frank ―Eu vejo possibilidades, essa tecnologia poderá ajudar. Um computador extremamente poderoso poderá processar modelos matemáticos jamais sonhados. Acredito que as ciências humanas só não são exatas pela falta de computadores suficientemente poderosos. Isso é possível agora.

―O oráculo é um computador ? Dá um tempo! Você teve uma semana dura, acho melhor descansar agora. Aconselhou Jamal.

Na volta, o mesmo uísque, outro Frank, seguro que tinha a solução para os problemas da humanidade.

Arthur digitou seu nome no formulário, a data de nascimento, a profissão e a função desejada na Microsoft – desenvolvedor de software – e clicou no botão enviar.

Em 2017 Já fazia 30 anos que a economia estava estagnada e a Microsoft ainda era a número 1 em software. O sonho de Arthur era trabalhar no topo do mundo. Já tentara mandar seu curriculum, sem nunca receber uma resposta.

Desanimado, andava pela cidade, sem rumo. Parou casualmente num parque de diversões, sem vontade de andar em nenhum brinquedo vagou até uma barraquinha esquecida num canto do parque. Um velhinho lhe ofereceu mostrar o futuro, de tão desanimado, sem forças para dizer não, aceitou.

Era um lugar escuro, cheirando mofo. Uma máquina que parecia aquelas máquinas antigas de ver filmes - vira uma vez no discovery channel. Era uma caixa com um visor e uma manivela.

_ Vamos filho, a fila está esperando. Não havia ninguém na fila.

Meteu a cabeça no visor e acionou a manivela. Levou um tempo até acostumar a vista com aquelas imagens toscas com cores desbotadas. Reconheceu aquele prédio de vidro, era a Microsoft, tinha até uma foto do Bill Gates na parede. A camara passeava pelos departamentos repletos de programadores até que parou em um cubículo. Ele ele! Arthur. Viu a si mesmo no filme, A imagem de Arthur acenou e sorriu.

Sentiu uma mão no ombro.

_ Vamos filho, o seu tempo acabou e a fila está esperando. Ninguém na fila.

Saiu desconcertado de lá. Como fizeram aquilo ? Que tipo de truque era aquele ? Ficou ali ao sol olhando para o infinito até que desfaleceu.

_Acorde! Acorde ! Você está bem ?

Arthur acordou em um salão enorme. Estava de terno, de cabelo cortado e barba feita. Se aprumou sem entender o que estava acontecendo.

_ O senhor é o próximo. A sua entrevista é na sala 13.

Sem forças para recusar, Arthur se dirigiu a sala 13.

_ Bem vindo a Microsoft senhor Arthur. Trouxe seu curriculum ?

Arthur percebeu suspreso que sim, tinha um papel nas mãos e era um curriculum. Entregou a moça como uma criança curiosa, na espectativa da próxima surpresa. Não entendia o que estava acontecendo mas estava se deixando levar pela correnteza.

_ Qual a vaga que o senhor pleiteia ?

Eu pretendo trabalhar em desenvolvimento de software, seja como analista ou como programador. Estou disposto a começar por baixo, meu objetivo inicial é aprender e, quando atingir a maturidade como desenvolvedor, contribuir para a melhoria dos produtos da empresa.

A entrevistadora fitou Arthur com um olhar incrédulo, abriu a gaveta e bateu um carimbo no curriculum de Arthur : FUNÇÂO NÂO DISPONIVEL.

De que planeta o senhor veio ? Faz décadas que a análise e desenvolvimento são robotizados, tudo funciona sem intervenção humana.

_ Próximo.

F I M