542 palavras

Caro Mestre,



Espero que esta carta o alcance o mais rapidamente possível e que o seu perdão também me alcance quando terminar sua leitura. Sem rodeios: há sete anos, quando deixei sua oficina, trouxe comigo sua poção de atração, cuja fórmula jamais me revelou, mas a qual atribuía o sucesso de seu casamento com sua linda esposa.


Pois agora sou igualmente casado com uma mulher maravilhosa desde que a tomei (toda a garrafa, ouso revelar). Descobri também que a poção traz um pequeno inconveniente: já temos seis filhos e ela espera o sétimo para a próxima lua. Não que não os ame, mas minhas finanças já apertadas estão chegando ao limite. Como o senhor teve apenas uma menina, cheguei a conclusão de que havia descoberto a solução para este dilema com outra poção. Desde então, tenho tentado produzir um complemento àquela fórmula desconhecida com o que aprendi durante nosso produtivo período como professor e aluno.


Infelizmente, e como o senhor já deve imaginar, não fui bem-sucedido.


A primeira tentativa me deu orelhas imensas que cobrem todo o meu pescoço; a segunda, ampliou minha barriga como se eu bebesse um barril de cerveja por dia. Ganhei também um par de asas enrugadas e fétidas nas costas, além de um rabo preênsil, que não é de todo mal, já que me ajuda a manipular os objetos da minha oficina. Surpreendentemente, minha esposa e filhos não rejeitam minha aparência asquerosa (esqueci de mencionar: também estou calvo e com a pele levemente esverdeada). Na verdade, parecem me enxergar como se eu fosse o mesmo homem de quando a conquistei.


Não posso dizer o mesmo do restante da aldeia: Já tentaram me apedrejar duas vezes. Hoje vivo escondido, recluso no porão de minha própria casa. Ainda trabalho para o senhor das terras daqui, mas ele reclama o tempo todo de que nunca mais viu meu rosto. Todo dia, invento uma nova desculpa para não deixar minha masmorra pessoal.


Declaro meu arrependimento e a disposição em me submeter a julgamento pelo crime de roubo, pelo qual peço-lhe humildemente perdão, Mestre. Peço que perdoe a ambição de um aprendiz tolo e jovem, que aprendeu, da pior forma possível, as consequências de sua cobiça desastrada.

Com os desejos de felicidade e saúde usuais,

Seu Aprendiz.




Meu Caro Aprendiz,

Sua carta muito me comoveu. Sempre pensei no que havia lhe acontecido durante estes anos. Saiba que outro aprendiz foi considerado culpado e, mediante tortura, confessou o crime. Saiba também que o segredo da segunda fórmula são as lágrimas do dragão Elligar, com quem eu negociava há anos – segredo, aliás, que o aprendiz torturado, preso e mais inteligente do que você descobriu sem a minha ajuda. Seu pai é um caçador de dragões de reputação impecável, então pode imaginar o desfecho desta história.


Lamento ter de revelar a você que, sem este componente, a poção perde seu efeito após exatos oito anos de ingestão. Minha mulher me abandonou no ano passado e levou minha filha, que não quer mais me ver.


Apenas não lamento a convivência interrompida entre mim e você porque, em breve, e apesar da imensa distância que nos separa, irei visitá-lo. Acredite: ficarei imensamente feliz em vê-lo.



Com os desejos usuais de que vá para o inferno,



Seu ex-Mestre.

533 Palavras


- Foi você quem quis aquilo! – gritei com ela.

- Sim, mas no final, a decisão foi sua, senhor Paulo.

É papel dos pais perdoar os filhos pelas suas péssimas escolhas para bichos de estimação. Mas não a desculparia, muito menos a sua mãe, por terem acolhido um jelle em nossa casa. Eu o detestava, e odiava ainda mais aquela voz tão serena que parecia estudada – eu sabia que os tradutores são programados para simular o estado emocional da criatura que os usa, mas desejava que sua petulância fosse algum defeito no aparelho.

Márcia avaliava meteoros e seu potencial para a exploração econômica, ou seja, estava a dezenas de milhões de quilômetros da estação no momento do acidente. Eu tentava relembrar os detalhes, mas só conseguia ouvir: o grito de uma mulher do outro lado do corredor e o suspiro débil que se seguiu ao encontro entre o transportador de carga e minha filha, logo depois do estrondo gerado pelo choque de dois corpos tão distintos em massa e velocidade. Seria mais fácil se eu soubesse o instante exato em que minha atenção foi desviada, o objeto que capturou meus pensamentos, o intervalo que se passou desde que ela saiu do meu lado e correu para ver algo que só chamaria a atenção de uma criança. Se eu soubesse – ou lembrasse de – algum destes detalhes, teria coragem de dizer a Márcia que a Fatinha estava viva graças a aparelhos e sua recuperação era tão improvável que mesmo um físico como eu, acostumado às medidas mais ínfimas da matéria, consideraria seriamente o uso da palavra "impossível" entre as outras, escolhidas com cuidado e desalento, para informar a minha mulher que nossa filha estaria morta em algumas horas.

Dias antes e mais de uma vez, o jelle havia me alertado de que sofria de uma doença terminal típica de sua espécie. Claro, eu não havia contato a Fátima – toda a estúpida ideia sobre a necessidade de uma criança vivenciar no fim de seu animal de estimação uma forma de amadurecimento, sim, eu a havia considerado. Junto ao óbvio desejo de, finalmente, me ver livre daquele ser, cuja espécie havia sido traficada aos milhões para entreter crianças entediadas durante as longas ausências de seus pais.

- Há uma forma, senhor Paulo. – ele disse – De salvar a mim e talvez a sua filha.

São proibidas as visitas acompanhadas por não-humanos, então o levei dentro de uma bolsa resistente a nanovistorias e o libertei na cama, ao lado do rosto dela. O jelle se contorceu, seu aspecto translúcido, maleável e repulsivo espalhou-se pelo rosto de minha filha e adentrou silenciosamente a boca entreaberta pelo respirador.

Ouvi mentamente, e mais uma vez, sua voz delicada, que não parecia me acusar, mas apenas lembrar as consequências de minha atitude.

- Você não entende – praticamente sussurrei – É isso que nós, homens, fazemos: escondemos nossas decisões mais egoístas com alguma desculpa – a palavra brincou na minha língua enquanto meus olhos pareciam, súbito, mais úmidos sob as pálpebras fechadas – altruísta.

Ela me abraçou, os dedos finíssimos em meu pescoço, o rosto pequeno, redondo e macio, tão infantil e conhecido que desejei que ainda houvesse algo de Fátima naquele corpo além de memórias assimiladas.